Hoje era dia do teste do pé, a etapa teria 30 km entre Hontanas e Boadilla del Caminho, mas o clube dos coxos no qual me insiro sensatamente optámos por fazer apenas os primeiros 10 para o aquecimento dos 30 de amanhã. Foi sensato porque ainda dói um pouco mas é suportável. Depois de hoje sinto-me animado porque correu bem. Renovou o espírito que poderei voltar aos km deste caminho. Até ver não há muito mais a contar, fora que Boadilla é um pueblo pequeno mas com a mística habitual das igrejas antigas de pedra. O hospitaleiro viu logo que eu era português, diz que foi fácil porque vive no Brasil e que o meu sotaque castelhano era fácil de perceber de onde vinha. A vida é bela de mochila às costas.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
35º Sinal | O dia do arroz cubano
Hoje foi o dia mais tranquilo até à data, ficamos em Hontanas, uma aldeia com quarenta e cinco habitantes. O albergue de Santa Brígida é praticamente uma unidade de turismo rural onde se fica muito bem instalado. Muito próximo da igreja da povoação inclui umas ruínas da casa mais antiga da povoação que terá cerca de 500 anos. Dia para conversar, por os pés de molho numa fonte de água gelada e experimentar o famoso arroz cubano, ainda que sem um ingrediente chave da receita, a banana frita. Ora bem, este prato é feito com arroz branco, ovos estrelados, salsichas, e polpa de tomate. Tudo aos pedaços e bem misturado. Lembrei que há dias experimentei o calimocho, mistura de vinho com coca-cola. Há gente a levar disto no cantil. Deve ser melhor que redbull. Amanhã vou fazer novo teste, a ver se já posso andar. Testar 10 km apenas a ver como corre. Por um lado fica o receio de asneirar outra vez. Mas é risco a correr, já não há paciência, para dias sem por os pés a andar. A vida é bela de mochila às costas.
34º Sinal | Encontros imediatos de terceiro grau
Podia começar isto de muitas formas, mas ontem dia de Burgos, foi um dia surreal, mais um. Dia das festas de Burgos, dia de loucura na rua, continuo a ficar muito contente quando vejo as charangas e fanfarras na rua a tocar, tem uma qualidade nos arranjos actuais e uma energia positiva fantástica.
Almoço em boa companhia, dos três da vida airada, José, Julian e Judite. A tarde estava a ser enfadonha, quando baixei da camarata e vim à zona de convívio. Apareceram o Bernd e o Peter que há dias apareceram numa das fotos. E este foi o início de um encontro imediato de terceiro grau. Peter é para-médico no exército alemão, e esteve a aconselhar-me sobre o que fazer com o pé, sobre a medicação e afins. Entretanto comecei a falar do que me anda a deixar ansioso, o caminhar, o chegar, enfim de tudo um pouco. Enquanto falava e contava histórias da minha vida, o Bernd, o Bernardo alemão, me pergunta quando é que eu fazia anos, 28 de Setembro disse-lhe eu, foi a segunda quase coincidência, ele faz a 29. Restou-me perguntar que idade tinha, 33, o mesmo que eu. E foi-me partilhando que há medida que lhe ía falando da minha vida que ele se revia em muito da minha maneira de viver as coisas e na parecença de alguns acontecimentos. Enfim tudo ficou muito estranho, as semelhanças no nome, idade, data de nascimento, acontecimentos semelhantes a ocorrerem exactamente no mesmo período das nossas vidas. Tudo demasiado surreal. Entretanto fomos ver o jogo de Espanha a um pub Irlandês que de Irlandês pouco tinha, enquanto vinham as cervejas veio também um pires de azeitonas, o Bernd ofereceu-me mas eu não aprecio, o qual me diz que ele também não. Tudo era estranho como um irmao gémeo, uma vida paralela noutro pais. Há coisas fantásticas e estranhas. Ainda assim a vida é bela de mochila às costas.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
33º Sinal | O gostar dos outros pelo caminho entre Belorado e San Juan de Ortega
Hoje teria muito para dizer, episódios de muita emoção, simplicidade, genialidade, divindade, e outras tantas boas palavras acabadas em ade, como amizade. Ontem, enquanto jantavamos ainda que estivesse um pouco em baixo, pela segunda vez e à volta de uma mesa disse aos meus companheiros, homens e mulheres, jovens, adultos e maiores, que gostava deles como pessoas que dá gosto ter por perto. De peito aberto, disse-o. A maré sentimental típica do português tem vindo ao de cima, e assim "el portu" como me chamam aqui por vezes aproveitou a oportunidade de transmitir teorias que por vezes ponho em prática e que como todos por vezes esqueço, mas que são essência da minha forma de ver as coisas. Que é o transmitirmos aos outros o quanto gostamos deles, dizendo-o, escrevendo-o, demonstrando com acções, e a promoção do elogio como forma de destacar as coisas boas de quem abraça e envolve o nosso mundo. Depois de partilhar o que me ía na alma ainda me deu para ouvir um como me quedas bien. Hoje, pensava que ía sozinho de autocarro, mas os outros três após um quilómetro voltaram para trás e tive companhia. Viemos para San Juan de Ortega de boleia. Como choveu de manhã, os outros peregrinos chegavam de ponchos, guarda-chuvas, etc., mas chegavam felizes, como é o exemplo que se vê na foto do Michel, um peregrino francês de sessenta e qualquer coisa anos. Entre tudo o que se foi passando hoje, recordo já com alguma saudade momentos de dois tocadores de flauta diferentes mas muito bons dentro da Igreja desta aldeia que não tem muito mais que meia dúzia de casas. O silêncio e as notas a ecoarem foi uma sensação de paz total, esta sensação repetiu-se em mais dois momentos. Numa conversa com o José um dos tocadores de flauta que apresentei à dias e quando com a ajuda de uma guitarra consegui convencer uma americana a cantar o Amazing Grace, e como diz o Julian, que hay cantado como un angele. Julian é um outro peregrino espanhol que enche as medidas de qualquer ser humano com uma humanidade maior. Vou tendo de tudo um pouco filmado, acho que poderei ter muita coisa para partilhar e boa. No meio de tudo isto, tenho de falar numa parte importante da conversa com o José, o tocador de flauta. Falávamos de Deus e do que será ou poderá ser. E ouvi a definição mais pura, sentida, clara e talvez perfeita que alguma vez ouvi. Deus não será um ser maior sentado num trono no céu, não é um ser que se coloca lá em cima a julgar, mas sim um ser que existe e que é representado em cada um dos seres vivos, homens, animais e plantas, e que na sua existência então estamos todos ligados. Desta maneira quando agredimos alguém por estarmos todos ligados acabamos por nos agredir a nós mesmos ou ao contrário fazendo bem aos outros fazemos a nós mesmos. Ora para mim, tornou-se numa definição clara para crentes e não crentes. Porque uma ideologia de fazer o bem aos outros nunca fez mal a ninguém. Viva a mente dos simples, porque sempre acabam por ver mais longe. De San Juan de Ortega e aberto ao mundo, a vida é bela de mochila às costas.
32º Sinal | Welcome to the irish corner
Feito o balanço de hoje, meia etapa feita, o pé novamente inchado, com as coisas boas já habituais dos almoços bem dispostos e as conversas com gente nova. Hoje foi dia de falar com um grupo de irlandeses. Ainda que não caminhem todos juntos, uma professora de línguas, um psiquiatra e seu filho e uma dinamarquesa que se juntou à conversa passamos um bom pedaço da tarde a falar um pouco de tudo, mas sobretudo de cada um dos nossos países. Uma coisa que achei engraçado foi que os nomes dos dias da semana em inglês vem de nomes de deuses vikings. Para uns nada de novo, para mim foi. Pés de molho na água fria da piscina. E assim passou mais um dia neste caminho que todos os dias nos traz coisas novas, terras novas, e o mais importante do caminho as pessoas novas e velhas. A vida é bela de mochila às costas.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
31º Sinal | A pé novamente ou talvez não
Alvorada! Hoje acordei às quatro à conta de querer começar a andar hoje. Sai eram quase seis à conta de uns atrasos de uns companheiros de viagem. Após seis quilómetros de caminho o meu pé esquerdo continua a doer. Pondero parar na primeira povoação e não fazer mais estragos. Tenho de ser consciente que se quero ir a algum lado, tenho de estar melhor e não devo arriscar a grande exprimentações. Por isso, o meu dia termina aqui em Granon, se houver autocarro. Ok, não havia, mais três quilómetros e tal, o que dá quase meia etapa. Foi bom ter continuado, cruzei-me com o peregrino polaco que está a fazer caminho desde a Polónia, e ainda me cruzei também com um peregrino norueguês que socorri à dois dias atrás quando ele estava quase a desfalecer. É bom ver gente conhecida. Troquei palavras também com uma dinamarquesa, ela deu-me um bom conselho... Andar a um passo mais lento, mas ao passo recomendado por ela mesmo assim a coisa não marchava bem. Enfim, não consigo deixar de ficar um pouco aborrecido e farto desta situação. Ainda assim, a vida é bela.
30º Sinal | Santo Domingo à quarta-feira, a revelação musical
Até à data e no resto do caminho parece que não poderei jamais estar melhor instalado. Este albergue é quase um hotel. Sítio a ficar. Foi um dia muito low profile, marcado pela despedida do Senhor Salvador de Bilbao, o companheiro de mi alma como me chamou. Grande pessoa que ensinou detalhes culturais e me fez descontrair com bastante sentido de humor. Bem hajas Salvador. Mas o dia teve mais dois pontos altos. José, jovem agricultor de Alicante, uma máquina a andar e a simplicidade em pessoa. O Pepe revelou-se como um tocador de flauta exímio proporcionando uns bons momentos musicais. O outro e último foi o acrescentar à lista mais dois amigos de mais uma nacionalidade diferente: África do Sul. Um casal de mais de estudantes medicina que proporcionaram uma boa e longa conversa. Coisas simples, coisas boas. A vida é bela de mochila às costas, mesmo em dias em que falta o ânimo.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
29º Sinal | Como um dia de Santo Domingo da Calçada
Hoje o dia começou às seis da manhã, talvez seja o áútimo em que ando de autocarro, a ver como estou amanhã. Hoje ficaremos no albergue mais antigo do caminho. Um albergue fundado em 1044, ela Confraria do Santo. Estou na terra da galinha que está dentro da igreja.
Até ver, hoje será um dia pacato. Tenho de forçar o descanso porque nos últimos dias com tantas horas de cozinha, e animação de outros peregrinos, tradutor para hospitaleiros, não tenho dado muito descanso ao pé. Claro que o sentido de utilidade que tenho vivido compensa, mas o clube dos coxos tem vindo a diminuir e amanhã se não estiver bom serei o único. Mas é o que tiver de ser, temos mais vinte e tal dias a andar... a sensação continua a ser surreal.
A vida é bela de mochila as costas.
A vida é bela de mochila as costas.
28º Sinal | A unificação do caminho
Hoje tive oportunidade de ir dar um salto muito rápido ao blog, e é bom sentir que vou conseguindo fazer chegar de alguma forma o modo que eu vou absorvendo as coisas deste caminho. Diz o meu irmão e bem, que não é um caminho alternativo, é o meu caminho, é a minha história de vida. E caminho, cada um tem o seu. Hoje estou em Najera, é dia de S. Pedro e de festa popular impressionante. Junto a uma zona verde do rio que atravessa a povoação, crianças a idosos se juntam para fazer churrascos e beber vinho da rioja, que fresco muito fresco não é mau afinal. As crianças e jovens fazem guerras de água com pistolas e garrafas de água e vinho se for o caso, dentro e fora do rio. Em pouco tempo, infância e juventude esta toda encharcada. No vídeo apesar da má qualidade de imagem podem apreciar a alegria do povo que dança à frente e atrás de uma fanfarra. O espírito é extasiante. Deu-me vontade de vir cá para o ano. Mas a minha amiga basca Haizea contou que numa terra chamada Aro hoje logo pela manhã há uma batalha de vinho. E depois a festa segue com o ritmo daqui. Pois meus amigos temos de vir celebrar aqui. Hoje naquele que é o meu caminho mais uma vez fui o cozinheiro para nove, fiz um panelão de arroz de frango que não sobrou, do muy rico há quem já deseje que eu continue mal do pé para ser o cozinheiro de serviço à abertura do restaurante de tortilhas... Querem-me destinar à cozinha. Hoje entre conversas com o Dantas, brasileiro que nos tem acompanhado, estivemos a partilhar histórias de vida e foi estranho no bom sentido ter encontrado uma pessoa com uma história de vida em alguns campos com tantas semelhanças à minha. Foi estranho mas bom, sinais de esperança para um bom sentido de vida. Na vida, no mundo, nada é original tudo se repete apenas os intervenientes mudam, mas dai surge a unicidade da vida de cada um e dos seus. Ao fim ao cabo da falta de originalidade no sentido global, surge o especial e único do que cada um somos a vivemos.
A vida é bela de mochila às costas com paragem em lugares diferentes, com histórias diferentes para contar. Por vezes penso que poderia escrever mais sobre os locais, mas mais que os locais e as paisagens bonitas, o caminho são as pessoas que passam, partilham e cohabitam nele. Deixo os pormenores históricos para o conselheiro Acácio. Entretanto a vida segue... Amanhã sigo até Santo Domingo da Calçada.
terça-feira, 29 de junho de 2010
27º Sinal | Uns a pé, outros de cavalo, e o clube dos coxos de autocarro
Depois de uma despedida musical do albergue de Logroño proporcionada mais uma vez pelo Sérgio Godinho versão Bernardo, resultado, duas hospitaleiras de lágrimas nos olhos. E ainda deu para ouvir um elogio que ontem tinha feito a diferença pelo jantar e pela alegria proporcionada a todos. Foi bom sentir que a minha maneira de ser acaba por ser útil. À medida que o tempo vai passando os laços e os contactos vão-se estreitando, e como alguns vão partindo de regresso pelas mais diversas situações surgem as conversas que na maior parte das vezes depois não dá em nada, mas por enquanto já se fala em nos visitarmos uns aos outros em Bilbao, Madrid, Aveiro, etc. É o abrir das portas de tua casa, e o abrir das portas do mundo inteiro para ti. Hoje mais uma vez tive de dar uma mãozinha ao casal americano que nos acompanha desde ontem devido ao mau estado dos pés da senhora.
Bem, hoje sigo viagem até Najera, a ver o que este caminho diferente me traz hoje. A vida é bela de mochila às costas.
Bem, hoje sigo viagem até Najera, a ver o que este caminho diferente me traz hoje. A vida é bela de mochila às costas.
26º Sinal | A tortilha do caminho
Bem hoje o dia foi animado aqui para o menos válido, como se diz aqui por estes lados. Animado no sentido que mal parei desde o último sinal que enviei. Este albergue paroquial tem um bom princípio de tornar as tarefas comunitárias, mas a meu ver com algumas deficiências no acolhimento... Sou um incentivador da alegria, e quando limitam o bom ambiente por questões que podiam ser toleradas facilmente sem ondas mas vá não interessa. Juntamente com o Salvador, um senhor excelente deste pais vizinho, fizemos as deliciosas tortilhas para os mais de trinta peregrinos e hospitaleiros do albergue, claro que tivemos ajuda a descascar os ingredientes, dez quilos de batatas, não sei quantas cebolas e pimentos. O resultado final foi uma excelente refeição elogiada pela hospitaleira, mas o mérito é do Salvador o especialista das tortilhas. Deu para eu colocar toda a gente animada antes do jantar com uma guitarrada. Pelo final da noite, eu mais meia dúzia de amigos fomos para a rua com a guitarra, onde pude tocar música portuguesa dos Deolinda, e na despedida de uma família de peregrinas de Valência, esteve presente o Sérgio Godinho, com o "parto sem dor". Começam a ficar interessados pela língua portuguesa os companheiros de caminho castelhanos. No meio disto tudo tenho desenvolvido uma relação com uma avó que arranjei por afinidade, uma senhora de setenta anos, galega emigrada na Dinamarca, que me tem tratado com um carinho especial desde o primeiro dia. Assim foi mais um dia da vida é bela com ou sem mochila às costas.
25º Sinal | O sentido alternativo do caminho em Logroño
Depois de guia e animador turístico do clube dos coxos nesta bela cidade de Logroño, entre idas à farmácia e albergue viemos almoçar à Praça do Mercado e provar o vinho da Rioja, que não é nada de extraordinário... Bebe-se bem com gasosa La Casera. É uma cidade com um centro histórico bonito... Nota-se muita presenca muçulmana na rua, tem vida própria. Até agora há um apontamento sobre todas as cidades e vilas pelas quais passámos... Tem sempre alguma coisa do centro histórico em obras. Ainda assim vale a pena para um momento de convívio numa esplanada a beber um copo de vinho. Isto também faz parte da vivência peregrina... A descoberta dos outros e das outras culturas. Mas no fundo é a descoberta de ti mesmo quando te integras com os outros e sozinho. A vida é bela de mochila às costas. Ps: parece que vou fazer o jantar para trinta pessoas.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
24º Sinal | O sentido do caminho parte dois
O dia começou e já andei de baloiço, coisa que não fazia há uns anos valentes. Mas fora este à parte, a vivência de cada dia é uma autêntica descoberta do que estamos aqui a fazer. Pois hoje a minha função é coordenar o grupo da associação das patas coxas ou simplificando o clube dos coxos. Ser multilingue tem dado jeito para articular as informações entre os castelhanos, americanos e brasileiros que aderiram a este clube.
Por outro lado vamos transportando as mochilas de peregrinos que seguiram a pé mas que já não podiam com o peso... Ao menos somos coxos mas úteis. Aos poucos vamos encontrando coisas que dão um maior sentido a tudo isto... Afinal o acaso dos acontecimentos não será apenas por ser. A vida é bela com duas mochilas às costas, a minha e a da mãe Ana de Valência.
domingo, 27 de junho de 2010
23º Sinal | O sentido do caminho
Hoje não foi um dia fácil de digerir, por vezes é difícil de lidar com a não concretização das coisas como idealizamos. E sobretudo tudo parece pior quando escrevemos no calor do momento e com a cabeça quente. Depois do choque da manhã, tive dois momentos grandes... Que em parte me poderiam fazer ir embora já realizado. Ainda que ao longo do caminho que tenho vivido, tenha vivenciado a felicidade dos simples que aqui se vive por todos os poros de quem a muito custo com mochila às costas tem sempre uma palavra ou um sorriso ou almoço para partilhar... Hoje vivi dois momentos de plenitude do espírito do caminho. O espírito de construção de família e partilha de quem somos quando já éramos mais de dez peregrinos à volta de uma mesa e que sem quase ninguém se conhecer tudo se divide, tudo se compartilha... Um pouco em sintonia com a famosa multiplicação dos pães. Um momento maior, sem dúvida e que me realizou. O outro durante a tarde, é uma das razões que me prende aqui a esta vivência cem por cento humana, para além de todo apoio e carinho que me tem chegado da família a pessoas que pouco conheço. Pois foi, compartilhei um momento com o Eugénio, senhor italiano de secenta e cinco anos, que depois de ouvir o que me aconteceu, me disse que já havia feito o caminho duas vezes e que na primeira se lesionou no joelho mas ainda assim chegou ao fim. E nisto emocionado com as lágrimas nos olhos me disse: Partiste agora tens de chegar ao fim. Descansa, mas chega ao fim. Porque ao chegar é que tens aquele sentimento maior de quem fica contente por ter chegado mas triste por acabar ali. Trocamos o número de telefone para nos encontrarmos ao chegar a Santiago, despedimo-nos com um forte abraço e seguiu caminho. Aqui não há barreiras culturais, o incentivo de cada passo dado é a partilha do que se vive. Assim é o sentido do caminho, assim se vive.
A vida é bela de mochila às costas, mesmo quando não se pode andar. Ps: estou com aquela ansiedade de querer ficar bom, ver o tempo passar e não notar melhorias... há que ter calma e tempo... No fim de contas até vinte cinco de julho andarei por estes lados. No fim, tudo foi uma fase menos boa numa experiência inesquecível.
22º Sinal | A primeira descoberta do lado positivo
A fonte de vinho de Irache não deitava vinho hoje, assim quando passar por lá num dia que passe por lá já tenho algo que não teria tido o prazer de desfrutar. Ah e sou o único a ter o carimbo do hospital.
A vida é bela de mochila às costas mesmo quando não se anda a pé.
21º Sinal | Sonho desfeito... A descoberta de um outro lado do caminho
Acordei na mesma com dores no pé esquerdo, decidi ir ao hospital ver o que se passava... Depois de avaliação da médica e de dois raios x recebi a má noticia, estou com uma tendinite e impedido de fazer esforço durante quatro dias... Enfim uma desilusão total, era dia para um chorrilho de asneiras completo de a a z. Para o ano visita a Pamplona e fazer estas etapas que me vão faltar passam a estar marcadas. Estou a bater mal com a situação, voltar a casa e voltar para o ano? Ou voltar ainda este com e fazer seguido... Isto de ter os dias contados limitou tudo. Senão descansava por três ou quatro dias e seguia caminho.
Enfim... estou desanimado. A única piada do dia é que com mais dois empenados um de Barcelona e outro de Madrid fundámos o clube dos três coxos. Ainda deu para apanhar boleia até Los Arcos. Chegados ainda encontramos a chica basca Alicea que tem o mesmo que eu mas nos dois pés. Ela emprestou-me os comprimidos para hoje porque a farmácia está fechada e a próxima só a dez quilometros, ora ir e vir dava uma etapa. Ainda encontramos duas peregrinas e uma delas esteve a partilhar a sua fé em Fátima à conta de um problema de saúde de um dos seus filhos que acabou por se resolver. Enfim há que aproveitar o que o caminho nos dá, se me deu isto... no final tudo o que está a acontecer há-de fazer algum sentido... Assim são os passos do caminho.
Abraço meu e dos colegas empenados de volta para o Zé.
sábado, 26 de junho de 2010
19º Sinal | Uncomfortably slow (desconfortavelmente lento)
Travelling again
I know exactly how it's gonna end
The routine day dream starts as I get off
I'm holding up the queue
Because my ticket won't go through
I know it should be simple but it's not
So don't take my photograph
Cos I don't wanna know how it looks
To feel like this
As cars and people pass
It feels like standing still but I know
I'm just moving uncomfortably slow
Something's gotta change
I know i'm lucky in a lot of ways
So why do I want more
Than what I have?
Brace myself to hear the lies
I wonder if they know that I
Don't get the jokes but I just
Need to laugh
So don't take my photograph
Cos I don't wanna know how it looks
To feel like this
As cars and people pass
It feels like standing still but I know
I'm just moving uncomfortably slow
I'm just moving uncomfortably
Slow down
There's infinite detail
When you break it down
It all becomes simple how
It all becomes clearer now
So don't take my photograph
Cos I don't wanna know how it looks
To feel like this
As cars and people pass
It feels like standing still but I know
I'm just moving sub-consciously
One day I guess i'll be
The man that you think you see
I'm just moving uncomfortably slow.
(para tradução da letra clicar aqui)
18º Sinal | A chegada a Estella
(As fotos são da vista do quarto, do massagista e de uma pausa de segundo pequeno almoço com algumas das pessoas com quem me tenho cruzado bastante)
A chegada que parece mais a queda de um meteorito... Estou a ver a minha vida a andar para trás. Os ligamentos do tornozelo esquerdo inflamaram e o mau andar andar desse pé está a dar-me dores muito fortes na anca, o facto de andar assim tem-me feito andar atrás do meu pseudo grupo.
Cheguei com as lagrimas no canto dos olhos porque os últimos quatro quilómetros foram tortura. Desde o início do dia que estava mal, mas foi agravando e a oito quilómetros de chegar já não aguentava um passo mais. Ao chegar a Llorca a minha malta estava cá fora de dois albergues a beberem qualquer coisa e eu a chegar podre a rebentar. O Mora, espanhol de madrid com ar de pirata das Caraíbas fez-me uma mini-sessão de reiki que depois foi continuada pelo Cláudio um argentino massagista que trabalha num albergue. Massagem feita o efeito durou por quatro quilómetros. Faltavam mais quatro. E foram os quatro piores do que fiz até hoje. O triste da questão não é a falta de preparação física, mas sim de casualidades do caminho como pedras ou perdas de calçado. Enfim, cheguei quase à uma da tarde. Dormi quase uma hora enquanto esperava para o banho, tomei banho e almocei o resto das batatas e chouriço tipo caldeirada que um casal de namorados espanhóis me ofereceram o que juntando dois ovos que um peregrino idoso me ofereceu, deu para improvisar uma tortilha. Bem haja este espirito. Estive numa amena conversa com um senhor francês, lavei a loiça do almoco e vim escrever que já não faço desde Pamplona. Mas decidi a partir de agora apenas colocar tópicos uma vez que não há tempo ao contrário do que esperava. Não sei como vai ser a minha vida amanhã... Se continuar mal mais vale dar um descanso de um dia, livrar-me de peso da mochila que talvez mande para casa, tipo o polar e umas outras coisas ínfimas mas que pesam. Isto de ter os dias contados é uma limitação que não devia existir para uma experiência destas.
17º Sinal | A caminho seguindo uma estrela
Afinal o dia começou um pouco mais tarde, ainda bem. O meu pé esquerdo continua mal, o joelho direito e virilha para compensar começam a acusar o esforço faltam catorze dos vinte. Hoje tento alcançar a Estella, como quem persegue um sonho. Na foto vai o Peter e Bernd (o Bernardo alemão). Até mais logo.
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