segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

134 dias para partir, Patrick's day

Sei que já não aparecia por aqui há uns dias, mas não perdi o rumo, nem me afastei do caminho.
Aliás se há um dia na minha vida que me apetece ir porta fora e largar tudo seria hoje... Se as contas não me atraiçoam a memória, hoje faltarão 134 dias para me fazer ao caminho...
Estava para partilhar mais um daqueles receios que podem assolar a cabeça de um peregrino com alguma experiência mas não tanta quanto isso. No entanto, hoje o Caminho de Santiago entrou-me pela janela do carro.
Saí do trabalho, e para arejar a cabeça e não me enfiar logo em casa fui dar uma volta de carro para os lados de casa dos meus pais, não muito longe da minha diga-se, mas enfim. Nisto, deparo-me com um sujeito cujo o meu primeiro pensamento foi, "Estás a precisar de um banho!". Longos cabelos e barba grisalhos, amarelados, alto, magro, encasacado, chapéu, mochila, sacos, tenda, uma vara bifurcada, um púcaro pendurado na mochila, e vieiras... é pá... vieiras... Santiago... púcaro... tenda... vara...peregrino errante?
Vi-o falar com uns senhores mas seguiu, sentou-se nuns degraus, pareceu-me exausto. Vou e falo? Será, não será? Tanto mau aspecto... preconceitos estúpidos. Liguei a um Amigo, a ver o que ele achava, desde o vai lá e fala e vês se precisa de alguma coisa, ao facto oposto de ouvir "Quando vais para fora e se precisas de ajuda ou de alguma coisa, pedes, não é?" Era um facto que a pessoa não aparentava andar a pedir ajuda, apesar do seu péssimo aspecto e ar estafado. Preconceito estúpido vencido, e fui lá. Abordei com um "Hello, do you need any help?", ao qual obtive um "No thanks, I'm ok.", fui insistentemente perguntando se não precisava mesmo de ajuda, e só me respondia que estava ok. Perguntei-lhe de onde vinha, a resposta: Ireland!
Passado um pouco, disse-lhe que ao ver vieiras na mochila pensei logo que seria peregrino de Santiago. Contei-lhe da minha intenção de fazer o caminho francês e ele disse que já o tinha feito, mas que aquilo já não era bem a mesma coisa, porque já estava a tornar-se um pouco um hábito quase turístico. Na percepção dele, disse que cerca de umas 200 pessoas partem diariamente para fazer o Caminho. E talvez estivesse a falar daqueles turistas que fazem o caminho sem mochila às costas, usando os serviços de transporte de mochilas.

Desta vez a aventura dele começara em Fátima e o destino seria Santiago.
Ainda no início da conversa disse-me que uma das dificuldades que estava a sentir é que os portugueses não falam muito inglês, nem mesmo os estudantes... Achei estranho ele referir que as gerações mais novas não falem... mas deve ter sido o que lhe apareceu à frente.
Estava muito vermelho, e arfava um pouco, perguntei mais uma vez se estava bem e não precisava de nada. Ele disse que estava com grupe, queria dizer gripe, disse que lhe arranjava medicamentos para se tratar os quais recusou, porque habitualmente não tomava nada. Por piada perguntei-lhe se precisava de whisky irlandês para curar a gripe, mas não, era homem só de tinto... Ao menos tinha noção daquilo que faz melhor.
E como diz o ditado "A pão e vinho se faz o caminho.", facto que ele imediatamente concordou, até comentámos sobre a fonte que existe no caminho, a da Abadia de Hirrache, que tem torneiras onde sai vinho gratuitamente.
Perguntei agora com um pouco mais de confiança se precisava de alguma coisa, ele falou em pão. E fui comprar pão. Só tinha 2,25 € no bolso, e sinceramente talvez todo o dinheiro que tenho, até que um dinheiro que anda por aí há muito tempo perdido me entre na conta, que era a conta onde já devia estar. Mas vá ainda assim, comprei 10 pães, custou um euro. Fui ao supermercado com 1,25€ procurar vinho tinto. O mais barato que havia, custava 1,25 € (mais uma daquelas coincidências), daquele embalado naqueles pacotes tipo de leite (os ditos tetra-pack), e chamava-se A Suadela. Uma suadela diz que faz bem à gripe, pelo menos, os meus amigos, eles, dizem que sim.
Fui-lhe levar a merenda a qual foi expressivamente agradecida, haviam de ter visto o sorriso dos olhos quando lhe mostrei o litro de vinho.
No fim perguntei-lhe o nome, respondeu Patrick, como o patrono da Irlanda. Mais uma coincidência, porque quem já me conhece, sabe que o meu destino, e de um grupo de amigos, que gosta de peregrinar será na ultima semana de Julho de 2011 rumar à Irlanda ao Monte de Saint Patrick, mais um local de peregrinação digno de viver.
Posto isto perguntou-me o meu nome, ao que respondi e ele comentou:"Como os cães que levam vinho ao pescoço certo?". Certo.
Pancadas calorosas nas costas e um bom caminho. E eu fiz-me ao meu, sem um tusto mas feliz.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Medo 2: O calor da meseta | Fear 2: The plains heat


Muito rapidamente porque estou sem tempo, quando puder e se for pertinente, actualizarei isto com mais conteúdo.
Este medo, ainda que não o seja, por certo será uma dificuldade, já que eu e os protectores solares não somos grandes amigos... será agora que nos tornaremos como unha e carne, digo eu com os nervos... A pele a tostar, a respiração ofegante, a sede, as insolações que eu sou perito a arranjar, são tudo coisas que de alguma forma me deixam de sobreaviso depois de leituras de blogs e de conversas com amigos, ao ler e ouvir falar de temperaturas acima dos 40s no verão na travessia da zona da meseta.
Ora, sendo assim, nada como deitar cedo e cedo erguer para ao calor sobreviver... estratégias por certo não hão-de faltar, podem faltar é as tão abençoadas sombras...
Medo? ... vou em busca de um leão... caçarei o maior... não tenho medo... hão-de ser uns lindos dias... no bom sentido.
Escrevi a correr mas vá, soube-me bem mais este desabafo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

SUD EXPRESS...quero partir... | SUD EXPRESS... i want to leave...

Ainda não é hoje que continua a saga dos "medos". Hoje estou com tanta vontade de partir que me enfiei no SUD-EXPRESS que me vai levar lá... Ao ponto de partida...
Nestas voltas de partir e não partir, vem-me à memória sempre uma música do Fausto, que me dá sempre prazer trautear ainda que com palavras trocadas... a memória por vezes falha, e a música reza assim:

"O barco vai de saída
Adeus ó cais de Alfama
Se agora vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
Pra lá da loucura
Pra lá do equador"

É mais a norte do equador, mas confirmo que é para além da loucura, e mais que isso é roçar a felicidade plena.
Parti... por hoje.

domingo, 24 de janeiro de 2010

149 dias para partir | 149 days to go


149 dias, se as contas não me atraiçoam e estou de partida... sei que já não venho aqui há uns 2 dias, mas este fim-de-semana deu trabalho com actividades do meu outro projecto dos Trilhos da Terra. Estou cansado, a ansiedade mistura-se com a vontade de partir e tal interfere com o sono. Anteontem sonhei que as solas das botas se tinham descolado durante o caminho e que à conta disso tinha comprometido o progresso do resto que faltaria, até acordei desalentado. Sei que é uma idiotice, melhor, uma criancice, mas a vontade é tão grande que tem afectado... sou um toni como diz a minha irmã... isto há-de serenar, espero eu.

Amanhã se o tempo permitir, continuo com a saga dos "medos"...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Medo 1: A chuva nos Pirenéus | Fear 1: Rain at the Pirinees


Nos próximos dias os desenhos vão sendo pequenas referências às coisas que me vão preocupando a cabeça.

Hoje, a preocupação que me assola, é ter de abordar a subida de 22 km dos Pirenéus com chuva, seguindo a Rota de Napoleão, que segundo li, aquilo enlameia de tal maneira que a dificuldade, que é enorme, triplica.

Ora chuva, não tenho medo de andar à chuva, até porque duas das minhas experiências de peregrinação (Fátima e Finisterra) foram feitas debaixo de muita chuva. Então a de Finisterra dois dias e meio de chuva intensa e frio em pleno verão... por vezes até dizíamos que ter vindo a Finisterra no inverno não tinha grande piada, que para a próxima teríamos de ir no verão.
Na experiência de Fátima, lembro de um dia 25 de Abril com chuva intensa, e passar na ponte da Figueira da Foz com as botas (aquelas malditas botas) a fazerem splosh splosh, parecendo dois aquários por dentro. O pior em nessa etapa de Fátima, em que ficámos em Marinhas das Ondas, foi o facto de durante o meu banho de água quente, esta ter acabado de repente e vir água gelada, os meus tendões contorceram-se todos e não foram ao sítio nem com massagem, e no dia seguinte fiz 64 km em cima de um pé/perna todo avariado, os últimos 20 km uma tortura. Coxeei durante dois meses.

Como costumo dizer, andar à chuva só custa até estar encharcado depois disso é sempre andar, a dificuldade só acresce se o vento que aparecer nos fizer arrefecer muito, fora isso a chuva é suportável, e por vezes inspiradora. Nada em como parar num café, e num dia assim, pedir um bagaço ou água ardente, melhor que um redbull que nunca experimentei, porque dá asas e aquece o espírito. Ora o chopito-blanco, leva-me a um dos episódios mais caricatos do caminho de Finisterra quando ao entrar num tasco familiar, daqueles gerido por pai, mãe e filha, pedimos informações para o dia seguinte e uns copos de água ardente, estava tão ardente que uma o homem deve ter-se escaldado e deixou-a cair ao chão. Era da boa, caseirinha e forte. Mas ao pedirmos isto o homem da tasca, vira-se para nós e diz: "Vosotros peregrinos?!". Foi de rir. Mas o hilariante não se ficou por aqui, ao pedirmos a direcção tomar para o dia seguinte, o senhor dizia que seria fácil, uma subida sem muito custo, por trás a esposa dizia, "Fácil o carajo!", ou lá o que era, esta divergência deixou-nos intrigados. No dia seguinte verificámos que não era fácil, mas também não era assim tão difícil.

Na vertente enóloga do caminho há um ditado: «A pão e vinho se faz o caminho.», se os nossos amigos tão presentes, eles, dizem deverá ser verdade. E é um facto, sem abusos, a dose certa de vinho dá aquele bem estar que por vezes é preciso para esquecer as maleitas que se vão somando de dia para dia de caminho. Ora comecei em chuva, acabei em vinho. O que tem a ver um com o outro. Ambos metem água! É como eu nestes dias de inspiração fraca.

Mas a moral de hoje é que por mais dificuldades que nos possam surgir, as coisas terão sempre a sua maneira de serem ultrapassadas. Mal ou bem, vai ou racha, pelo menos é como eles dizem.

E esta hein! (fica a homenagem a um Sr. que marcou muitas gerações - Fernando Pessa)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Puente la Reina

A quarta etapa terminará em princípio na povoação de Puente la Reina.
É uma vila ainda na Província de Navarra, situada a 20 km de Pamploma, á cota de 346 metros. Ali está-se sob influência do clima Mediterrânico-Continental. Nela habitam 2300 habitantes.
Lá o peregrino pode contar com multibanco e posto de turismo.

É aqui que se junta o caminho aragonês com o caminho francês. O desenvolvimento da vida ao largo dos anos desenvolveu-se em torno do Caminho. Daí as disposição das suas ruas serem paralelas a Calle Mayor, com travessas estreitas que as ligam. Puente la Reina tem um grande ambiente medieval graças aos seus monumentos e ruas.

Esta povoação do vale de Olzarbe deve o seu nome à ponte construída por ordem da Rainha Dona Mayor, esposa de Sancho III, O Grande de Navarra durante o século XI, com a intenção de facilitar a travessia do rio Arga aos peregrinos.

Acho que pelo menos a volta habitual ao final do dia terá o seu encanto... mais um recanto a conhecer.

Mais um pensamento que me vai assolando a cabeça é esperar conseguir ir chegando aos locais em condições para conhecer as povoações... mas isso daqui a pouco mais de 5 meses saberemos.

On your marks, get set, go...! Bolas ainda não é agora.

Ontem perdi -me... | I got lost yesterday...

Neste post não há desenho a acompanhar, mais tarde farei um que encaixe aqui.

Ontem! Ontem perdi-me a ler o diário de um peregrino português que fez o caminho francês em 2007, queria ter uma ideia aproximada do esforço de efectuar o caminho... ao que me deparei com um cenário de dificuldades extremas, sobretudo físicas.
Fiquei alertado para problemas de tendões, musculares, desidratação, quebras de tensão, insolação, queimaduras solares, problemas digestivos, etc. Ok, não vou poder facilitar. Na farmácia tenho de me prevenir, com sais e açucare, comprimidos com magnésio para os tendões, voltaren rapid, algum comprimido que forre o estômago da agressividade que os anti-inflamatórios poderão ter, talvez uma embalagem de reumon-gel, vaselina para untar bem os pés antes e depois de caminhar, compeeds, agulha e linha, betadine pequeno, ben-u-ron, imodium (ou muita coca-cola) e o fundamental protector-solar.

Sobretudo tenho de ter a consciência que tenho de beber muita água e comer bem, muito bem. A pessoa que fez o caminho em 12 dias tinha perdido 5 kilos por descuido e algum facilitismo, perder esse peso eu até agradecia mas passar mal por isso, acho que dispenso. Acho que uma pessoa fica absorvida com o chegar e com o resto da vivência de tal forma que por vezes se esquece de comer e beber água aos litros.

E agora também me ponho a pensar se ele apanhou temperaturas abrasadoras em Setembro, pergunto o que me poderá esperar em Julho? Mas com tanta alteração climática pode ser que no sentido perfeito para caminhar apanhasse uns dias frescos e amenos... como eles costumam dizer... "Vai sonhando!"

Acho que tenho de me preparar bem fisicamente nos próximos 5 meses, dar mais uso ao ginásio e dar regularidade a caminhadas. E fazer vários testes de mochila às costas, e fazer a mochila várias vezes até lhe optimizar o peso da carga... ou então como costumo dizer... simplesmente vou e pronto...

Após ter lido o diário dos seus 31 dias até Santiago, algumas questões ficaram ainda por esclarecer na minha cabeça. Sobretudo a questão da segurança, claro que não me passa ser roubado em pleno albergue, mas já ouvi histórias, que pelo menos deixam a pulga atrás da orelha. E sim fez em 31 dias, e várias vezes efectuou etapas de 40 km, eu só tenho 28 a 29 dias.,
Já pondero em arranjar mais uns 2 dias de folgas ou férias que possa juntar a este role de dias seguidos, e em vez de partir dia 24 partiria dia 22 de Junho, para que dia 24 estivesse verdadeiramente com os pés no Caminho. Isto caso exista comboio do sud-express nesse dia.

Apreendi que o convívio será ponto assente de ser vivido como se fosse sempre o último momento, porque todos os dias vamos perdendo alguém que deixamos para trás ou parte para a nossa frente. Sempre que esticamos etapas como foi descrito entramos num universo paralelo, num outro grupo de pessoas que partiu noutra altura diferente da nossa. Sempre que fazemos isso é como entrar numa nova realidade, onde pontualmente alguém estica o passo também e nos trás memórias dessa outra realidade paralela.

Penso que ao longo destes dias irei divagar ainda muito mais acerca do vou lendo, das experiências que vou absorvendo, não querendo que influenciem a minha, porque por certo quando a estiver a viver não vou ter a mínima lembrança de todos os detalhes lidos... e ainda bem... para que aquele caminho possa ser o meu.

É justo dizer, embora não conheça, obrigado Rui pela partilha do teu caminho. Umas noções a mais de como poderá ser a experiência dão sempre jeito e mais algum alento.

Para terminar ficou-me na memória uma frase que talvez seja o melhor conselho que se pode dar alguém com esta ambição:

"Camina como un viejo para llegares joven a Santiago"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Alto del Perdon

Como tinha falado ontem esta quarta etapa entre Pamplona e Ponte la Reina, varia em altitude entre os 446 de Pamplona, os 734 do Alto del Perdon, os 345 de Ponte la Reina. Rezam as crónicas que quando o calor aperta a subida até ao alto do perdão é um pouco penosa, mas não há nada como comprovar.
Neste alto da serra, existe um monumento de estátuas em metal que representam os diversos tipos de peregrinos, e nessa estátua está escrito o seguinte:

"Donde se cruza
El Camino del Viento
Con el de las Estrellas"

São estes pequenos pormenores espalhados, entre sinais e expressões ao longo do caminho que ajudam a torná-lo diferente. São estes pequenos detalhes que fazem que o caminho tenha uma vida própria para além das vidas que o percorrem.

São as pequenas coisas que me inspiram, como eles costumam dizer: "São as pequenas coisas que fazem a diferença."

domingo, 17 de janeiro de 2010

Santa Maria de Eunate


Num lugar isolado a uns 2 km da povoação de Obanos, desviando-se um pouco do caminho que conduz directamente a Puente la Reina, durante aquela que será a quarta etapa (teoricamente), encontramos este lugar que é considerado com um dos mais singulares e emblemáticos de todo o Caminho - Santa Maria de Eunate.

Esta igreja tem uma lenda que achei curiosa e interessante e que numa partilha de cultura popular, divido convosco.

A lenda de Eunate-Olcoz

Narrado por um mestre pedreiro

"Quando eu fui incumbido de esculpir a entrada da igreja de Santa Maria de Eunate senti-me lisonjeado. Decidi trancar-me longe de tudo a ver se me vinha inspiração divina para que pudesse criar uma obra prima, mas quando regressei reparei que um pedreiro gigante havia completado o trabalho que me tinha sido encomendado.

Indignado, fui visitar o abade, que não quis ouvir as minhas explicações e fez questão de tornar claro que a minha ausência foi considerada uma falta de respeito para com os monges e ele próprio. Como castigo, ele ordenou-me que esculpisse um trabalho idêntico, que eu teria de fazer no mesmo tempo que o gigante demorou: três dias, nem mais nem menos.

Em desespero, dada a importância da tarefa, embrenhei-me na floresta com a firme intenção de invocar o diabo. Contudo, a bruxa de Laminak teve pena de mim e revelou-me um segredo mágico que resolveria o meu problema.

Seguindo o seu conselho, eu tentei arranjar uma pedra de lua que uma grande cobra segurava na sua boca. Teria de deitar essa pedra para o leito do rio durante a noite de São João (que coincidiria por aquela zona com o Solstício de Verão).

Com a luz da lua a reflectir naquela pedra, eu assisti ao milagre. Mas algo correu mal, a fachada do edifício estava de trás para a frente, como uma imagem reflectida no espelho. As pessoas estavam espantadas e o gigante furioso, deu um pontapé tão forte na igreja que esta foi parar numa povoação vizinha.

Aos que de vós forem curiosos devem saber que podem admirar o meu trabalho na igreja de Olcoz, com a mesma fachada mais ao contrário da Igreja de Santa Maria de Eunate."

Não sei que tipo de moral se poderia tirar desta lenda, mas aplicando-a a esta aventura, há coisas que não vale muito a pena nos pormos a pensar, mais vale dedicar-mo-nos logo a fazê-las, porque por vezes ao pensarmos demais perdemos a nossa oportunidade ou desistimos antes de as fazer.

Porém esta etapa não terá terminado sem um momento alto... ficará para amanhã!

Família | Family

Nota: Ontem devia ter postado, mas foi um dia atribulado e acabei por não conseguir. Este post não estava nos planos de aparecer aqui, mas como levei o caderno comigo para este almoço de família, e se hoje em dia tiver uma oportunidade para esboçar mais umas tentativas de desenhos, assim o farei.

16 de Janeiro de 2010, a minha mãe comemorou mais um aniversário, e os meus irmãos tiveram a ideia de lhe proporcionar um almoço com vista para coisas que ela tanto gosta de contemplar: o mar e gaivotas.

Devo dizer que me soube bem ir almoçar com a família a um local diferente fora dos locais de rotina habitual. Faz bem sair e apanhar outros ares, refrescam-se as ideias e instala-se o bem-estar.
Não me vou alongar muito sobre a importância que a família tem na vida de uma pessoa, porque como toda a gente sabe, tem e muita. Desde a educação, valores, alegria, conhecimento, convívio, é ela que mal ou bem nos prepara para vida, talvez não na totalidade mas pelo menos na sua base e essência.

Entre muitas pessoas que tenho importantes na vida, sinto que seria especial para mim ter os meus pais e irmãos à espera naquela praça com pedra por todo lado, mas onde nunca se sente o frio, porque o calor das emoções de quem peregrina enchem e aquecem aquela praça, diria que diariamente.

Este dia que passou foi um bom dia, para renovar o espírito que por mais que se envelheça, e a idade avança, é no aproveitar o que temos à nossa volta que os dias se enchem de significado, e é nestes dias que damos valor em estarmos aqui, vivos com um mundo de oportunidades, de escolhas e caminhos a percorrer. Uma vida, duas vidas, muitas vidas, caminhos cruzados, interligados nos laços que se estabelecem sem querer, a partir do dia em que soltamos o nosso primeiro grito, ou o nosso primeiro choro. Foi um bom dia comecei a festejar com a família e acabei a festejar a vida com amigos.

Vida!


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pamplona

Pamplona, num dos guias está marcado como ponto final da terceira etapa. Penso que fará sentido sê-lo, porque nestes dias de caminhada esta será provavelmente a cidade mais conhecida e importante. Quem nunca ouviu falar das festividades de San Fermín? E das suas famosas largadas de toiros pelas ruas? Quem não tem na sua memória vestes brancas e lenços vermelhos ao pescoço?

Pelo terceiro dia seguido ouve-se falar da Província de Navarra, a pé parece que se anda devagar, e demora-se mais a chegar aos destinos. Mas no fundo acho que se ganha mais...

Voltando a Pamplona, é uma cidade com quase 200 000 habitantes, situada na zona de transição entre a Navarra seca e a Navarra húmida (em questões climatéricas). E está a uma altitude de 449 m.
Segundo consta acolhe bem os peregrinos. O seu crescimento como cidade nas suas várias dimensões (urbano, tecnológico, económico, social e cultural) deu-se a partir do século XX.

As festas do seu patrono, San Fermín, são de 6 a 14 de Julho. Vou perder isto por pouco mais de uma semana, o que é pena. Terei de lá voltar um dia para viver a loucura desses dias.

Caso se goste de património arquitectónico, os monumentos mais importantes a visitar, se houver tempo, serão: a Igreja-fortaleza de San Cernín, Catedral metropolitana, as Muralhas, a ponte da Madalena e a Igreja de Santo Domingo (esta última muito ligada ao caminho de Santiago, dada a presença de vieiras jacobinas e ainda ter no seu retábulo principal uma imagem de Santiago).

Daqui, partirei para mais uma etapa em direcção a Puente La Reina... E pelo caminho passarei por... se não se derem ao trabalho de procurar, amanhã...

... Talvez conte!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pontes... | Bridges...

Falta menos um dia para que eu parta. É em alturas como esta que vem aquela velha máxima, que os nossos amigos do costume, eles, costumam tanto dizer: "Quanto mais depressa, mais devagar." Se as contas não me falham faltam 162 dias, para estar enfiado no comboio rumo aos Pirenéus.

Hoje experimentei canetas tipo pincel, uns marcadores um pouco mais sofisticados com muito potencial por explorar. Coincidentemente a imagem que escolhi relativamente à anterior tem também uma ponte. Trata-se da ponte de uma das vilas da terceira etapa entre Larrasoaña e Pamplona, a povoação chama-se Trinidad de Arre.
Para informações práticas de quem poderá fazer o caminho, interessarão as seguintes informações: é uma vila da província de Navarra, à cota de 430 m, localizada a 4 km de Pamplona. O clima que se faz sentir é de influência Pirenaica. Possui 6993 habitantes. E tem á disposição caixas multibanco e bancos. Nesta pequena localidade, pode-se visitar a Igreja da Santíssima Trindade, do século XIII, que antigamente tinha o papel de hospital, e ainda o antigo convento dos Irmãos Maristas onde agora funciona o albergue.

Quem parte assim para alguma coisa, mesmo que seja no simples acto de sair à rua está sujeito a muitas vezes ter de atravessar pontes. Já que o nosso planeta está coberto em 3/4 da sua totalidade por água, onde se incluem os oceanos, rios, ribeiros e torrentes que obrigam-nos muitas vezes a que se queremos avançar para a outra margem temos de construir as ditas pontes.
Mas quem diz pontes, diz ligações. E o Homem não é ninguém sem estabelecer ligações, laços de amor, amizade, companheirismo, empatia, laços das mais variadas cores e feitios, intensidades e sensações, e sim está sujeito a isso quando sai da sua toca. Com este pensamento vem-me sempre aquela frase batida: "Nenhum homem é uma ilha."
Quando alguém parte para algo assim, mesmo que não espere nada, por certo enriquecerá a sua rota com muitas pontes dos vários tipos, sobretudo das que são erguidas com amizade e companheirismo. Hoje tenho a sensação que as pontes que se edificarem neste caminho serão pontes com construção sólida para a vida. E não serão como outras que aparentemente de alicerces fortes, se desmoronam com a correnteza das águas que a chuvas intensas do inverno trazem, e que acabam por se tornar efémeras.
Penso que as que se criarem nesta longa travessia, serão daquelas que não precisam de visitas de manutenção, que mesmo com descuido na presença e visita, se manterão de pé para sempre. E estas sim valerão a pena de contemplar, nem que seja de longe, porque da simplicidade, nasce a sua robustez e imponência.
Quando fui a Finisterra com mais cinco amigos, criámos as pontes a que hoje se chama família Rebentos de Oliveira, numa homenagem ao celebrante da missa do peregrino em Santiago de Compostela do dia 24 de Julho de 2009, que pediu aos peregrinos que fossem condutores de paz, que fossem rebentos de oliveira.
Mas nesta ida a Finisterra a pé também foi criada mais uma ponte daquelas simples e robustas, como o Sr. Gilbert Rihet, 62 anos, francês, habitante de uma vila perto de Rennes, na província da Bretanha no norte de França, que um dia decidiu colocar a mochila às costas e bater com a porta de casa e durante quase 12 semanas, percorreu cerca de 1792 km, desde sua casa até Santiago de Compostela e de lá até ao fim do mundo (Finisterra).
Esta ponte inspirou-me em parte a fazer este caminho, e pontualmente de Julho para cá, é figura presente numa mensagem, telefonema ou email em que se partilha todo o apreço e amizade de breves e escassos momentos de alguns passos dados juntos no mesmo caminho.

Do nada, buscamos uma pedra e outra e outra, e construímos uma ponte para chegarmos lá... onde quisermos!

Eu quero, e tu?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Larrasoaña novo ponto de passagem | Larrasoaña a new passing point

Hoje o blog leva-nos para outro rumo duplamente. Sim duplamente. Quer por uma breve passagem pelo ponto de partida da terceira etapa quer pelo novo rumo deste exercício criativo de partilha. Começo pelo último, uma vez que tenciono colocar alguma coisa diariamente (só em casos impossíveis é que não o farei) e como até me pôr ao caminho faltam cerca de 163 dias, teria de ter um espírito infinitamente imaginativo para ter algo para partilhar diariamente. Porque por mais entusiasmado e a programar aos poucos as coisas, há pormenores que não terão interesse para quem lê, e haverão dias em que nada acontece nesse sentido. Assim, surge o novo acrescento deste caminho.

Sempre quis saber desenhar e desenrascar-me a fazer bonecos. No verão comprei o livro «Diários de Viagem» de Eduardo Salavisa, e o livro inspirou-me. Possui estratos de diários gráficos, cadernos que pessoas os levam consigo no seu dia-a-dia e viagens, onde registam casualmente desenhos de locais, pessoas, situações, detalhes, pensamentos. Em Agosto fiz o meus primeiros dois desenhos com o intuito de ir desenvolvendo a coisa. O que é certo é que até hoje não tinha pegado mais num lápis que fosse. Anteontem fui ao blog do mesmo autor e ganhei novo fôlego para ir desenhando.

É de notar que não sei desenhar mais do que aquilo que se aprendia em educação visual até ao 9ºano. Portanto os desenhos que irão aparecer aqui, uns melhores outros piores, ficarão como um processo de aprendizagem auto-didacta, com pontualmente algumas dicas de amigos(as) que dominam o assunto. Claro que não me vou pôr a dissecar como fiz e o que experimentei em cada desenho. Posso apenas dizer que tenho muitas canetas, lápis e a última aquisição, aguarelas. Mais um mundo para explorar, vai ser em parte como uma caminhada em que vamos dando passos até encontrarmos o ritmo certo. A ver...

Ora, mas desenhos de quê? Inicialmente tinha intenção de ir colocando posts com fotografias dos locais por onde iria passar, para me ir familiarizando com alguns locais. Mas penso que nesta fase transformar essas fotografias em desenhos seria muito mais rico como ganho de experiência para mim. De acordo com a parábola bíblica, uma pessoa deve por a render os seus talentos, poderei eventualmente não ter talento para isto, mas ao menos vou tentar cultivar e ver no que dá.
Por outro lado, como vou com o tempo contado e sem grande margem de manobra, não terei muitas oportunidades para parar e desenhar, porque duvido que em 6 meses ganhe fluidez e agilidade no traço para desenhar rápido e bem. Se é que alguma vez conseguirei. Sim, porque como mais uma vez, eles sempre dizem: "Depressa e bem, não há quem!".

Por outro lado, se possível, para além da minha vivência como ser humano em todas as suas dimensões, queria concentrar-me em colocar em prática o meu projecto fotográfico de fazer retratos dos peregrinos que fizerem parte do meu caminho. Enfim veremos depois o que é possível de se fazer. Todos sabemos que os planos nunca correm como os delineamos.

Assim, começo a partilhar alguns dos locais de passagem deste meu caminho, partindo de desenhos, ou tentativas de desenhos feitos por mim. Depois, se tiver na memória todos os locais tentarei tirar uma foto para poder comparar aquilo que se imagina sentado a um computador, com a realidade das coisas no caminho.

Hoje, levo-nos até a uma ponte medieval na povoação de Larrasoaña, conhecida também como a ponte dos "bandidos", porque antigamente ladrões escondiam-se nela para assaltar os peregrinos que por lá tentavam passar. Este pueblo, fica na Província de Navarra, a 27,4 km de Roncesvalles, a uma cota de 500 m, sob influência do clima Pirenaico. Possui apenas 168 habitantes e não dispõe de banco. Muito mais havia a dizer, mas infelizmente não temos tempo.

Como diria aquele inesquecível narrador de desenhos animados: "Não percam o próximo episódio, porque nós também não!"

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A credencial... como um passaporte | The credential... like a passport

Para iniciar este caminho há algo indispensável que não pode faltar: a credencial do peregrino. Como se pode ver na imagem, este documento funciona quase como um passaporte, onde é registado o nosso percurso através de carimbos, de albergues, centros de atendimento ao peregrino e estabelecimentos comerciais, correios, etc, praticamente em todo lado haverá um carimbo pronto a comprovar que passámos por aquela povoação (atenção à colocação da data da passagem). Sem ela não podemos receber a Compostela, que por sua vez é o documento que comprova que o peregrino realizou o caminho. Sem ela, não podemos ter acesso à rede de albergues oficiais. É de ter em conta que a credencial deve ser selada, datada e carimbada logo no ponto de início do caminho mesmo que não pernoitemos por lá.
As credenciais podem ser solicitadas em diversos locais desde os albergues, aos centros de atendimento ao peregrino, ainda nas paróquias e Associações de Amigos do Caminho de Santiago.
Mais fiel registo que a credencial, só os meus olhos e a minha memória.
É algo que ficará para mais tarde recordar e que trará lembranças, como por exemplo uma que não me esqueço quando fiz o Caminho de Finisterra. Numa das paragens para beber qualquer coisa num café e carimbar a credencial, travei conhecimento com um grupo de três peregrinos distintos e de combinação à partida improvável: um belga, uma mexicana e uma coreana. Daquelas coisas incríveis que este caminho faz, juntar pessoas improváveis.

Mas para além de tudo isso, como me diz um grande amigo, há carimbos que vale a pena observar porque são verdadeiramente feitos com arte... por isso para um caminho tão grande há quem me diga: "Leva duas!".

Levarei!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um salto de fé | A leap of faith

Quando se parte assim à aventura, tudo me faz lembrar uma expressão, salto de fé. É engraçado que esta entrou no meu vocabulário, a partir de um dos filmes de um dos meus heróis da adolescência, o Indiana Jones, já lá vai algum tempo em que sonhava ser arqueólogo e ter vivências épicas na descoberta de artefactos antigos. Mas como estava a dizer, esta expressão fez sentido para mim quando vi o «Indiana Jones e a última cruzada», e na fase final da história o arqueólogo tem de se submeter a uma série de provas para conseguir chegar ao Santo Graal. Uma delas, era o salto de fé, em que este se deparava com um abismo, daqueles escuros em que não se vê o fundo e forçosamente ele tinha de alcançar uma entrada que estava do outro lado do escuro buraco. Como o conseguiu? Com um salto de fé, com um passo em frente ao desconhecido e ao acreditar, uma estreitíssima ponte antes invisível aos olhos foi sendo aos poucos revelada. O herói acaba por alcançar o Graal que necessitava para salvar o pai. E fim de filme.

Mas é um pouco assim que estou a viver isto por dentro. As incertezas e a imensidão do caminho torna necessário que haja um pouco mais que vontade, um pouco mais que coragem, é preciso um salto de fé que por sua vez nos potencie a fé e o acreditar que há algo maior que nos impele, que nos guia.

Se falo em fé, falo em caminho, se falo em caminho, falo em Santiago, se falo em Santiago, falo numa forma antiga de se levar a fé e a evangelização, ainda que os métodos de outrora não sejam os mais recomendados, mas seguindo o raciocínio, se falo no amigo Santiago, falo noutro amigo, Jesus. Não, não é o do Benfica. Mas sim aquele que marcou a história e fez com que o tempo se distinguisse em duas épocas distintas... hoje só provavelmente as pessoas que jogam ao Civilization se devem lembrar que estamos na era d.C. (depois de Cristo) e que antes desta houve a fase a.C. (antes de Cristo).
Continuando, de alguma forma então, mesmo que rebuscada, o Caminho de Santiago acaba por existir relacionado a esse Homem que marcou a história, mesmo para aqueles que não acreditam, o caminho existe porque ele existiu, caso contrário seria apenas um percurso pedestre.

Neste caminho como na vida, mas sobretudo neste caminho, podemos experimentar de uma forma aberta e sem julgamentos a vivência da máxima e lema de vida que a religião católica tanto aclama, "amarmos o próximo como a nós mesmos".

Ali temos uma oportunidade única de fazer o bem, quando se ajuda, quando se incentiva, quando se partilha uma refeição, um abrigo ou um agasalho, quando apenas gentilmente se diz bom dia e se deseja bom caminho. Ali, podemos desprender-mo-nos desta sociedade desconfiada que não permite abordagens de pessoas desconhecidas na rua, e podemos abordar quem quisermos sem sentirmos que vamos importunar. Temos liberdade. Existe um fio condutor que une todos os peregrinos, e lhes abre o espírito para o outro, o tal próximo tão apregoado.

Neste caminho vive-se a essência da humanidade, talvez o meu olhar utópico me faz levar o pensamento que o propósito da máxima anterior seria que as religiões e outro tipo de crenças deixassem de existir para criar divergências, pura e simplesmente acabavam porque toda a gente teria uma postura de partilha e bem do outro. Era bonito... no mundo não é possível ao menos ali é. Porque o caminho é percorrido por pessoas de todos os cantos do mundo, com credos e "fés" diferentes, ou mesmo por gente que não acredita em nada, mas que após aquela vivência por certo não viverá de forma indiferente à intensidade e riqueza que esta experiência acaba por trazer. De tal maneira que por certo toda a gente perguntará a si mesmo de onde vem aquela energia, mística, espírito, força e magia que une quem percorre este longo trilho.

Acredite-se no que se acreditar, em tudo ou em nada, somos livres em última instância no pensamento, ali vive-se... com fé.

Eu? Acredito.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma experiência entregue a mim mesmo | Solo experience

Ao longo destes dias de partilha do arrancar deste projecto com alguns amigos, têm surgido algumas conversas e emails em que sinto que as pessoas gostariam de partir e fazer o caminho comigo. Por um lado é com alegria que sinto essas palavras, porque seria bem mais fácil ter gente conhecida por perto para dividir as dificuldades do caminho.

Mas nesta minha altura de vida, o desafio que sinto que preciso para mim, é partir por minha conta e risco e vivê-lo como se tratasse a descoberta de um mundo novo. Estar entregue a mim mesmo, superar o desafio sem empurrões ou palmadinhas nas costas. Sobretudo aprender ainda mais sobre mim mesmo, o que sou capaz ou não... e superar-me como pessoa. Interacção com outras pessoas irá ocorrer com certeza, conhecimento de outras pessoas, ajudar outras pessoas, ser ajudado por outros.

Sinto que preciso de algo assim, para me tornar melhor e ainda mais capaz de concretizar os tantos projectos que sonho realizar na minha vida. Este é um deles.

Throughout these days of sharing with friends the start of this project, have appeared some conversations and emails where I feel that the people would like to go and to make the way with me. On the other hand it is with joy that I feel these words, because it would be well more easy to have known people to share the difficulties. But in this phase of my life, the challenge that I feel that is necessary for me, is to leave at my own risk and to live it as if it dealt with the discovery a new world. To be alone, and surpass the challenge without pushes or palms in the back.

Over all to learn more on me exactly, what I am capable or… not. And surpass me as person. Interactions with other people will go to occur with certainty, knowing other people, help other people, being helped by others.

I feel that I need something like this, to become better and still more capable to materialize as many projects that I dream to carry through in my life. This is one of them.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Roncesvalles

Os dias vão passando aos poucos, e o projecto da aventura vai ganhando consistência. Tudo isto surge apenas de uma vontade, não foi planeado, nem programado... enfim, está a acontecer aos poucos, é um processo. Deste modo, sei dizer-vos muito pouco do que me aguarda, sei que o caminho está lá à minha espera com umas 31 etapas que espero fazer em 28 dias.
Inicialmente tive vontade de não pesquisar nada e preocupar-me apenas com o chegar ao ponto de partida. A seguir como diz o povo que fosse o que Deus quiser. Mas assim que comecei a efectuar a minha ainda ligeira pesquisa, entendi que este desafio não será de todo fácil e como a vontade de chegar ao fim é imensa, esta passa a ser obrigatória, porque tudo isto não pode ser uma tomada de decisão inconsciente. Mais uma vez como eles dizem, a fazê-lo há que fazê-lo bem, ou ainda novamente como eles dizem um homem prevenido avia-se em terra ou ainda um homem prevenido vale por dois. E nisto não há que discutir, se eles dizem tanto isso há-de ser melhor dar-lhes ouvidos.
Então até à minha partida vou investigar e partilhá-la convosco... depois então vou poder estar em condições de comparar o que diz a teoria acerca do caminho, das terras, dos albergues, das pessoas com a vivência prática das coisas que acabarei por ter. Porque por muitos blogs que possam haver desta temática, cada caminho, cada vivência, cada vida é única, então estou na expectativa de no final deste caminho ter trazido algo de diferente a tudo o que já foi escrito e vivido por outros.
Mas também vos sou sincero e seguindo o conselho do amigo Zé, não vou tentar saber tudo aprofundadamente, vou com umas luzes do que posso encontrar e esperar... para não retirar a magia e o encanto do factor surpresa que este caminho pode trazer.
Assim até me aventurar no caminho, vou tentar conhecer, descobrir aos poucos o que cada local e etapa me pode trazer.

Nesse sentido o meu ponto de partida da segunda etapa será Roncesvalles, se tudo correr como imagino claro está. Provavelmente será nesta pequena povoação que dormirei no meu primeiro albergue (caso chegue a horas decentes). Mas penso que na altura em que estarei por lá, sendo ano jacobeu deverá haver uma grande afluência de peregrinos no caminho francês, o que poderá complicar as vagas nos albergues.

Segundo o que li o Albergue de Roncesvalles é o maior do caminho com 120 camas tipo beliche, possuindo ainda tendas montadas para acolher mais alguns peregrinos. Mas ficou-me desde já o aviso que dormir num local com 119 "ressonadores" não é tarefa fácil e nem com tampões nos ouvidos se consegue descansar... A ver vamos, digo eu.

Mais uma questão que ficará em aberto é o pequeno-almoço de saída do dia seguinte, uma vez que esta pequena povoação não oferece locais onde comprar e tomar o que quer que seja a essa hora. Segundo consta, este lugar tem apenas dois bares onde servem refeições e não tem supermercado. Fora isso existe a igreja, onde a celebração tem partes realizadas em várias línguas e onde se dá a benção a todos os peregrinos. Voltando à questão do pequeno-almoço, li que a cerca de uma hora de caminho se encontra um café que poderá satisfazer essa necessidade. Por certo passarei lá a confirmar, e colocar o meu visto nesta extensa check-list que se vai formando aos poucos.

Ora de Roncesvalles que poderei dizer mais, em Francês diz-se Roncevaux em Basco chama-se Orreaga, sendo por sua vez uma pequena vila do Norte de Espanha, na província de Navarra, situada perto do rio Urrobi.

Mais um passo dado...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

o meu será um caminho de pessoas |mine will be a pahtway made of people

fotografia por Bernardo Conde 2009
photography by Bernardo Conde 2009


Nestes dias que têm passado a adrenalina da aventura tem tomado conta de mim, e as ideias não param de surgir. Faço fotografia, já num passo um pouco mais à frente do que o simples amador que fotografa por gosto, é um mundo que aos poucos gostaria de abraçar profissionalmente.

Ora o que é que a fotografia tem a ver com uma ida a Santiago? Por certo as paisagens, povoações e pormenores arquitectónicos, terão o seu encanto e o seu misticismo, mas depois de
várias idas a Fátima, Santiago e Finisterra a pé, como experiências de peregrinação, principalmente nesta última tive a percepção que o caminho é mais do que os passos que se dão, mais que as paisagens que se vêem ou que por vezes não porque o cansaço já não nos deixa levantar a cabeça. Mais do que isso, o caminho para além de toda a vivência interior, o caminho são as pessoas que se cruzam connosco, peregrinos de todo o mundo, habitantes locais com quem trocamos palavras como se não houvesse barreiras nem fronteiras, religiões ou crenças, é a partilha do mesmo sentido que a humanidade faz-se assim por criação de laços que nos fazem sentir que o mundo é pequeno e que o que nos separa uns dos outros é... nada.
Por este sentir, ao fazer o caminho tentarei fazer homenagem a todos os que já fizeram esta experiência e comungam deste sentir, tentarei fotografar (retratar) pessoas com quem me cruze ou possa vir a partilhar alguns quilómetros de caminho. Estou curioso para ver no que isto pode dar. Pedirei a cada pessoa 4 dados ou 5 dados: Nome, Local de Origem, Profissão, Idade e hipoteticamente algo aleatório que queiram partilhar.
Quem sabe se esta ideia não chegará a livro?
Esta ideia não poderá obviamente sobrepor-se à vivência natural do caminho, sobretudo é uma experiência para ser vivida e saboreada, tudo o resto vem por acréscimo.
Saborear... parece-me bem!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Saint Jean Pied de Port

Esta povoação será o verdadeiro ponto de partida onde os meus pés passam a ser o principal meio de transporte. Os pés? Ou o espírito? Não sei qual deles será o mais importante, talvez o segundo, porque dizem eles que sem espírito nada se faz. E se eles dizem é porque deve ser verdade.

Assim, Saint Jean Pied de Port é o tradicional ponto de partida para o Caminho Francês de Santiago. É uma cidade velha e pitoresca. Há alguns mercados ao ar livre em torno da cidade, um bom lugar para comprar qualquer coisa que nos tenhamos esquecido. É uma comuna no département francês de Pyrénées-Atlantiques e é também a capital da antiga província basca de Nafarroa Beherea (Basse-Navarra).

A cidade encontra-se ao pé do rio Nive, a 8 quilómetros da beira espanhola. A cidade original era próxima de Saint Jean le Vieux e em 1177 foi arrasada por terra pelas tropas de Ricardo Coração de Leão após um cerco. Os reis de Navarra fundaram a cidade na sua actual localização pouco tempo depois.

Saint Jean foi sempre um ponto importante na rota da peregrinação de Santiago de Compostela, na passagem para Roncevaux através dos Pirinéus. As rotas de en Velay de Paris, de Vézelay e de Le Puy encontram-se em Saint Jean Pied de Port e era o último pouso dos peregrinos antes da dura travessia da montanha.

This town will be the true starting point of my journey, where my feet start to be the main transport. The feet? Or the spirit? I don't know which of them will be most important, perhaps as, they say that without spirit we get nothing. And if they say that, it must be truth.
"Saint Jean Pied de Port is the traditional starting point for the Camino de Santiago. It is a quaint old town, and normally fairly busy. There are a few outdoor markets around the town, a good place to get anything that you have forgotten to bring.

“Saint Jean Pied de Port (literally meaning “Saint John at the foot of the mountain pass” in French) is a commune in the French département of Pyrénées-Atlantiques. It is the old capital of the traditional Basque province of Nafarroa Beherea (Basse-Navarre).

The town lies on the river Nive, 8 km from the Spanish border. The original town at nearby Saint Jean le Vieux was razed to the ground in 1177 by the troops of Richard the Lionheart after a siege. The Kings of Navarre refounded the town on its present site shortly afterwards.

The town has traditionally been an important point on the Santiago de Compostela pilgrimage route, as it stands at the base of the Roncevaux Pass across the Pyrenees. The routes from Paris, Vézelay and Le Puy en Velay met at Saint Jean Pied de Port and it was the pilgrims’ last stop before the arduous mountain crossing."

in http://www.caminodesantiago.me.uk/st-jean-pied-de-port/

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

altimetria, o primeiro susto | altimetry, the first scare

fotografia de Bernardo Conde 2009
photography by Bernardo Conde 2009


Altimetria do caminho? Digamos ora sobe, muito, ora desce, muito. Após consultar estes dados num site, tive o meu primeiro susto. O caminho é bastante acidentado, pelo menos aparentemente. Mas nada me demove. Acho que vou repetir isto muitas vezes.

Altimetry of the way? Let us say however it goes up, a lot, however it goes down, a looot.
I had my first scare after consult these data in a website. The way is very rough, at least pparently. But nothing dissuades me. I think that I will repeat this thought many times.