Decidiu-se fazer a etapa não até Villa Franca Del Bierzo mas mais uns quatro ou cinco km à frente até Pereje. Opção tomada dado que amanhã a etapa a fazer é das mais puxadas de todo o caminho, segundo consta, a subida até a Ocebreiro. Assim a de amanhã está encurtada. A escolha foi bem acertada o albergue é uma casa rural soberba. Recomendado. Fora estes detalhes, a caminhada é feita com esforço. Mas isso toda gente sabe. A corrida começou, muita gente iniciou a peregrinar hoje, os números começam a subir e quem começa agora, vem com mentalidade diferente. Vem para andar e correr à caça aos albergues, nota-se que vêm um pouco arredados do espirito do caminho, generalizando claro está. O caminho ganha encanto na paisagem mas perde na maneira como se vê muita gente a fazê-lo. O caminho deixa de ser um caminho espiritual de abertura aos outros. Mas não ganho nada em falar do que observo, mas deixa-me com uma má sensação. Ainda assim conheci mais um casal americano, e um chico espanhol. Cada um tem o seu caminho, e para mim definitivamente o caminho são as pessoas, e não os km. O que levamos daqui são sobretudo as vivências de quem se encontra e está igualmente aberto ao mundo. E sobre as pessoas, hoje é dia de agradecer aos meus companheiros de caminho, destes últimos dias, que me têm dado uma força, e uma atenção nos cuidados aos pés e da alma. Estou rodeado de pessoas excepcionais. É o mais gratificante desta experiência. A vida são as pessoas, estimem quem tenham à vossa volta e quem se aproxima e vem por bem, é isso que se leva desta vida, que é bela de mochila às costas. Uma fase diferente do caminho mas com novas descobertas interiores, umas ficam cá dentro, outras serão para pôr em prática. Sei que o discurso anda cinzento mas como dizemos na nossa terra, quem vê caras não vê corações. Quero chegar!
quarta-feira, 14 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
43º Sinal | A etapa da cruz de ferro até Ponferrada
Bem a saga das etapas duras instalou-se. Há dois dias que abandonei as planícies tórridas da meseta de Leon, e comecei a trepar e descer montes, mas que montes. Hoje depois de alvorada às seis, seguimos novamente até à cruz de ferro e a partir daí sobe ainda um pouco mas depois são descidas e descidas daquelas que fazem tremer as pernas de tanto esforço. Vinte e tal km duros, mas em que a paisagem e as aldeias por onde se passava eram qualquer coisa de bonito. Melhor só a etapa de Saint Jean. Chegámos ao albergue ao meio dia e pouco e mais uma vez um mundo novo de gente, há muita gente a começar aqui o caminho. A massificação chegou para ficar. A etapa deixou sequelas em todos, em mim um joelho dorido, um pé empenado e uma bolha valente que vem a resistir. Ossos do ofício. E por mais conselhos que sigamos não há como evitá-las, se tiverem que aparecer, aparecerão. Fora este detalhe pouco interessante, telefonei ao grupo que ficou para trás, contaram-me que quando leram uma mensagem minha à dias que se emocionaram e que houve lágrimas no canto do olho. E que a falta é reciproca. A vida é intensa por estes lados, mas também não sei viver de outra maneira. A pacatez dos dias e a ansiedade de acabar começam a dominar, isto nesta fase começa a saber a nostalgia. Não estou a desanimar, mas ainda estou para descobrir o sentido nestes dias que já são poucos que faltam. No meio disto tudo, é engraçado ver os orientais com o seu ar simpático e cómico a cumprimentarem-me mal me vêem a não sei quantos metros de distancia. Podia fazer um relato sobre Ponferrada, mas dado o meu estado não tive oportunidade de vislumbrar grande coisa, mas é bonita. Cá fora valoriza-se mais os chamados centros históricos. Mas isto levaria para outras guerras que me faz lembrar um pouco triste que no nosso país tratamos tão mal o nosso património. Devaneios à parte, a vida é estranha e bela de mochila às costas. A ver o que amanhã traz.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
42º Sinal | De Astorga à Cruz de Ferro e Foncebadon
Esta etapa prometia ser difícil. E assim foi. Os pés continuavam inchados, desde início que se começa a subir suavemente até que os últimos seis km são bem puxados. Fiquei extremamente cansado. Deixámos as mochilas no albergue e subimos a mais um dos pontos mais místicos do Caminho - a Cruz de Ferro. Este local tem um encanto especial onde pessoas das mais diferentes culturas deixam as suas pedras transportadas ao longo do Caminho até ali, assim como tudo o que se possa imaginar existe ali - símbolos de fé, promessas e pedidos. Voltámos a descer ao albergue fazendo assim um total de cerca de trinta e três km de etapa. Caí redondo na cama sem banho e sem almoçar. Por andar a dormir mal, sinto-me mais cansado que o normal. Duas horas e meia depois acordei bem, fui ao banho e almoçar. Passei a tarde com uma guitarra emprestada, fazendo festa para quem estava a aproveitar o sol. Conheci uma coreana com o nome da minha irmã, ainda mais duas americanas, uma boliviana que já vem a caminhar connosco há uns dias, e o japonês Dio. Amanhã seguimos até Ponferrada. Mais uns vinte sete, penso que vamos baixar os 200 km de distância a faltar até Santiago. Esta fase dos próximos quatro dias promete ser desafiante, a ver como me aguento e que histórias trazem mais. Depois do que vivi até hoje no caminho e com a intensidade que foi, que nos dias mais ou menos bem mais pacatos, resta saber saborear os pequenos e simples momentos e torná-los tudo menos banais, como quem diz especiais.
A vida está cada vez mais dura mas a vida é sempre bela de mochila às costas.
domingo, 11 de julho de 2010
41º Sinal | Dois dias, duas etapas, uma feia, outra esplêndida
Tem sido difícil com o cansaço a acumular escrever com o ritmo inicial. Por isso, peço desculpa pelos atrasos, mas tranquilizo já dizendo que tudo vai bem. Ontem a etapa de vinte e tal km entre Leon e San Martin del Camino, foi do pior que pode haver. Mmuita estrada, paisagem feia, San Martin é desinteressante. Foi um bom dia para descansar, tentando fugir ao calor mas nem dentro dos albergues se consegue isso. A sensação de mau estar do grupo ter-se partido continuava, a juntar ao mau espírito que três ou quatro bolhas me andam a causar. Mas o mal foi os pés terem inchado como nunca vi, os meus. Terminado o dia de ontem, o dia de hoje posso dizer que foi quase perfeito. Apesar do início difícil, por ter os pés extremamente inchados, e ter alargado os atacadores ao máximo, a etapa fez-se muito bem, com algumas subidas e descidas por paisagens que por vezes pareciam o Alentejo. A meio do caminho de hoje passámos por mais uma placa que diz quantos km faltam para Santiago. Um pouco mais à frente na etapa, o Julian perguntava se era melhor parar para comer. Disse que não e seguimos caminho os cinco. Um km depois estava um rapaz com um posto de apoio ao peregrino com tudo que se podia querer, de sumos a bolachas a bolos caseiros, fruta tinha de tudo. Incluindo boa energia e de pôr em prática de forma exemplar o lema que partilhei à dias. Com energia reposta, aquela pausa serviu também para aumentar o bom espírito e os sorrisos e gargalhadas de quem aprende a apreciar de coração cheio a grandeza da atenção daquele rapaz que já tinha feito o caminho há dois anos e agora retribuía. Faltavam poucos km para chegar a Astorga, cidade pequenina, mas muito bonita, com Catedral e Palácio de Gaudi (a visitar) e outras tantas praças a ver. Depois de instalados no albergue a boa disposição aumentou com a chegada dos três mosqueteiros da Normandia e o Eugénio, o senhor italiano de quem já falei. Foi bom ver gente conhecida, talvez aos poucos consiga formar um novo grupo ainda maior. Banhos e lavagem de roupa tratada, fomos almoçar cozido maragato, muito parecido ao português. Até hoje a melhor comida do caminho. Depois fomos esticar as pernas para ver a catedral da cidade e o palácio episcopal da autoria de Gaudi. Entretanto tenho conhecido mais gente, Cláudia, da Bolívia, Bret e o Abe dos EUA, e o Filipe, do Brasil, e que por coincidência tem de apelido Bernardo. O Abe está a fazer o Caminho com a mãe, uma experiência interessante. Ainda mais uma curiosidade que liguei ao primeiro sinal do revisor do comboio. Abe é diminutivo de Abraham, Abraão em Português. Ele anda mesmo aí a proteger-me no caminho. Lentamente vou ganhando novo ânimo. Sempre à procura de como ser útil, vou falando por telefone com as irlandesas que ficaram para trás, para ver se lhes mantenho a moral de continuarem até ao fim e dando indicações do que vem a seguir. Assim vou fazendo caminho, assim a vida é bela, dura e intensa de mochila às costas.
sábado, 10 de julho de 2010
40º Sinal | Lemas
Dentro de todos os lemas que podem existir, o toma "o que necessitas e deixa o que possas" penso que se adequa ao que vou fazendo por aqui, absorvendo da experiência e dos outros o que necessito e dar-me ao máximo no que posso, sobretudo com os outros, deixando marcas.
O dia começou com alvorada às três da matina, os quase 40 km até Leon assim o exigiram, porque o calor anda infernal por aqui. Quatro e dez começámos a marcha. Esta fase da meseta é sem dúvida feia e desinteressante, com caminhos sem sombra e a acompanhar a estrada nacional. O bom é que é plano. Após uma fase inicial, dezanove km depois encontrei a salvadora da minha máquina e a avó Rita no café onde parei para desayunar. Foi uma festa, a contrabalançar com o sentir-me mal pelo separar do grupo. Às onze e meia chegámos ao albergue e a sensação foi estranha, porque as caras conhecidas eram quase nenhumas. Foi como entrar num mundo à parte, a alegria foi ter encontrado os três mosqueteiros franceses. Até à hora da siesta, passei mal, muito cansado e dorido. E com o calor a moer ainda pior. Melhorei após a sesta, e seguimos a visitar Leon, ruas e catedral. Ao longo do dia conheci um brasileiro e um japonês. O ambiente esta estranho, falta qualquer coisa. Creio que a partir daqui vai ser massificado, esté aqui muita gente. Amanhã vinte e quatro km, a ver se dá para descontrair. Esquisitices à parte a vida é bela de mochila às costas.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
39º Sinal | Dia de 30 km a fazer entre Terradilla dos Templários e Burgo de la Renera
Alvorada às quatro da manhã, apenas com três horas e meia de sono. Porque ainda tive de embalar ao som do valente ressonar do Maxi. Tudo arrumado, quase a pôr-me ao caminho quando no meio do escuro dou um passo em falso e dei uma queda de uma altura suave de meio metro, mas estatelei-me no chão. Susto refeito, fiz-me ao caminho com os colegas de caminho de hoje, Julian, José e Dani. Pela madrugada é maravilhoso andar, fresco e a luz do raiar do sol é qualquer coisa que nos faz pensar que se fosse sempre assim seria fácil. Tudo correu bem até o sol começar a apertar nas últimas duas horas de etapa, entre as 10 e pouco e o meio dia e qualquer coisa. O calor arrasou com qualquer energia que pudesse haver, mas foi bom ao chegar, ter ocorrido a casualidade de que um senhor regava a relva em frente ao albergue e pude refrescar os pés. Durante os 30 km de hoje partilhei o caminho com os três mosqueteiros franceses, senhores na casa dos sessenta anos que são da Região da Normandia, temos cruzado e falado bastantes vezes, já os retratei fotograficamente, um dia partilharei.
O mal deste dia foi que o grupo começou a dividir-se, uns ficaram numa aldeia uns 10 km atrás. E separámo-nos sem dar por ela e sem nos despedir, resta a esperança de pelo menos poder recêbe-los em Santiago, se não for antes. Ontem despedi-me das duas irlandesas, ainda que trocámos números e vamos falando e quanto mais não seja estaremos juntos em Santiago também. Provavelmente virão a Portugal para a Exposição de Fotografia. As despedidas são o lado triste do caminho. O Caminho é o viver o ciclo de uma vida inteira num mês apenas, porque passamos por tudo o que vida nos pode proporcionar. Por isso tudo é tão forte, intenso e vivido e tudo custa mais que o normal. Companheiros de caminho estou convosco. Até já. A vida é dura mas bela e rica de mochila às costas. Amanhã quase 40 até Leon.
O mal deste dia foi que o grupo começou a dividir-se, uns ficaram numa aldeia uns 10 km atrás. E separámo-nos sem dar por ela e sem nos despedir, resta a esperança de pelo menos poder recêbe-los em Santiago, se não for antes. Ontem despedi-me das duas irlandesas, ainda que trocámos números e vamos falando e quanto mais não seja estaremos juntos em Santiago também. Provavelmente virão a Portugal para a Exposição de Fotografia. As despedidas são o lado triste do caminho. O Caminho é o viver o ciclo de uma vida inteira num mês apenas, porque passamos por tudo o que vida nos pode proporcionar. Por isso tudo é tão forte, intenso e vivido e tudo custa mais que o normal. Companheiros de caminho estou convosco. Até já. A vida é dura mas bela e rica de mochila às costas. Amanhã quase 40 até Leon.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
38º Sinal | Amigos no caminho
Hoje mais um dia intenso, onde o inesperado aconteceu e onde vi a vida mal parada. Hoje foi um dia perdido, por um lado, mas ganho por outro. Hoje quando estava para começar a andar às cinco e meia da manha, reparei que me faltava a máquina fotográfica. Fui à camarata várias vezes revirar tudo e não aparecia, desfiz a mochila três vezes e nada. Desesperei. Lá se ía o projecto fotográfico. Duas peregrinas a Inês da argentina e outra senhora espanhola ficaram bastante preocupadas. Depois de cabeça um pouco mais fria, organizei as ideias e se não aparecesse iría directo até Leon e tentar desenrascar uma alternativa. E retomar caminho aí. Enquanto isso só para ficar de consciência mais tranquila tentei ir ao bar onde ontem tínhamos ido ver o jogo do mundial, Uruguai contra a Holanda. Estava fechado até às três da tarde. Mas um local mostrou-me onde moravam os donos e lá fui eu. Eram sete e meia da manhã quando lá cheguei, como tudo estava fechado, aguardei que acordassem. Esperei duas horas, até que uma senhora veio à janela do primeiro andar. Uns minutos depois vi-a passar na janela da cozinha e fui bater gentilmente na janela. Perguntei se podia falar com ela, respondeu que não e virou as costas. Pensei que não me tivesse percebido ou que tivesse ido vestir outra coisa para falar comigo, mas nada. 10 minutos e nada. Bati novamente à janela e nada, e numa última vez ela vem à janela e ameaça de imediato que se não me vou embora que chama a guarda civil. Ainda lhe perguntei se tinha visto a máquina, mas mandou-me embora e que fosse ao bar às três quando abrisse, mas que me fosse embora senão chamaria mesmo a guarda civil. Acho que nunca fui tão mal tratado por ninguém, com a excepção de uma militar no dia da inspecção para a tropa. Devo ter cara de terrorista. Voltei ao albergue a fazer horas à espera das três ou de algum sinal de vida. Desfiz a mochila de novo e nada. Passava do meio dia quando uma das irmãs do albergue atende o telefone era o José, o flautista, a dizer que tinham localizado a máquina. A minha expressão mudou de tal maneira que a freira disse, veja como o rosto se iluminou. Ja era muito tarde e o calor infernal da meseta já estava instalado. Meti-me no autocarro e fui ter com os meus companheiros de caminho. Ao chegar estava o Julian com ela. E contou-me que foi a Argentina que voou para apanhar o peregrino que tinha dormido na cama ao lado da minha e que por engano a tinha colocado na sua mochila.
Problema resolvido podia descansar e pensar novamente em fazer caminho seja ele o que for. Mais que nunca foi o sinal que a postura de prática do bem pelos outros, de lhes dar alegria e proporcionar novas amizades neste caminho é a essência de tudo. Não fosse esse tipo de vivência teria ficado sem máquina provavelmente. No man is an island. Já dizia o outro senhor, que um homem não é uma ilha, e com muita razão. Acabei a noite da melhor forma com a despedida do meu irmao gémeo alemão e do seu amigo Peter juntando-se à festa as duas irlandesas Onia e Marie, não esquecendo umas belas cañas de cerveja. Bom final de noite onde tive aquele sentimento de quando estás com gente com quem te sabe bem estar, quase como amigos de longa data, sobretudo quando as irlandesas me disseram que a melhor notícia do dia delas tinha sido o aparecimento da minha máquina, além disso é sempre bom ouvir que alguém nos entende como uma boa pessoa e que gosta de nós. Família, amigos, conhecidos, gosto de vocês.
A vida é bela de mochila às costas mesmo em dias difíceis. E com isto recordo uma frase que li no vão da escadaria do albergue de Santo Domingo da Calcada: Se o caminho é demasiado fácil, provavelmente não leva a lado nenhum. Assim é!
terça-feira, 6 de julho de 2010
37º Sinal | O dia
Boadilla del camino cinco e meia da manhã, começou a marcha até Carrillon de los Condes, vinte e seis quilómetros planos que correram excepcionalmente bem. O pé só doía quando parava e retomava. Após quinze minutos de marcha depois da paragem tudo ficava bem. Resultado final, um tornozelo inchado mas sem muita dor. Amanhã a etapa será semelhante. Hoje fiquei realmente feliz por ter conseguido terminar, soube-me como um grande feito. Ainda que não tenha sido nada de outro mundo. Foi importante o chegar, mas mais importante e forte foi o almoço musical que os peregrinos que vão dividindo o caminho comigo e eu próprio partilhamos, num momento familiar de bem estar universal. Estivemos presentes eu, José, Julian, Benjamin, Inigo, Haizea, Fito, duas Mónicas, Maxi, Gregorio, Brenda, Daniel, Antonio, Juanma, Onia, Marie, Camila, Jennifer foi um momento de convívio de várias horas em que se cantou e dançou com uma energia brutal que traduziu de forma clara o que é o espirito do caminho, as pessoas. Um outro momento que marca foi um convívio com pessoas com deficiência mental que estão alojadas neste albergue. Realmente com música todas as barreiras se quebram. Hoje foi um dia assim bom. A vida é realmente bela de mochila às costas.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
36º Sinal | Enfrentar medos, o pé no caminho Alvorada às cinco
Hoje era dia do teste do pé, a etapa teria 30 km entre Hontanas e Boadilla del Caminho, mas o clube dos coxos no qual me insiro sensatamente optámos por fazer apenas os primeiros 10 para o aquecimento dos 30 de amanhã. Foi sensato porque ainda dói um pouco mas é suportável. Depois de hoje sinto-me animado porque correu bem. Renovou o espírito que poderei voltar aos km deste caminho. Até ver não há muito mais a contar, fora que Boadilla é um pueblo pequeno mas com a mística habitual das igrejas antigas de pedra. O hospitaleiro viu logo que eu era português, diz que foi fácil porque vive no Brasil e que o meu sotaque castelhano era fácil de perceber de onde vinha. A vida é bela de mochila às costas.
domingo, 4 de julho de 2010
35º Sinal | O dia do arroz cubano
Hoje foi o dia mais tranquilo até à data, ficamos em Hontanas, uma aldeia com quarenta e cinco habitantes. O albergue de Santa Brígida é praticamente uma unidade de turismo rural onde se fica muito bem instalado. Muito próximo da igreja da povoação inclui umas ruínas da casa mais antiga da povoação que terá cerca de 500 anos. Dia para conversar, por os pés de molho numa fonte de água gelada e experimentar o famoso arroz cubano, ainda que sem um ingrediente chave da receita, a banana frita. Ora bem, este prato é feito com arroz branco, ovos estrelados, salsichas, e polpa de tomate. Tudo aos pedaços e bem misturado. Lembrei que há dias experimentei o calimocho, mistura de vinho com coca-cola. Há gente a levar disto no cantil. Deve ser melhor que redbull. Amanhã vou fazer novo teste, a ver se já posso andar. Testar 10 km apenas a ver como corre. Por um lado fica o receio de asneirar outra vez. Mas é risco a correr, já não há paciência, para dias sem por os pés a andar. A vida é bela de mochila às costas.
34º Sinal | Encontros imediatos de terceiro grau
Podia começar isto de muitas formas, mas ontem dia de Burgos, foi um dia surreal, mais um. Dia das festas de Burgos, dia de loucura na rua, continuo a ficar muito contente quando vejo as charangas e fanfarras na rua a tocar, tem uma qualidade nos arranjos actuais e uma energia positiva fantástica.
Almoço em boa companhia, dos três da vida airada, José, Julian e Judite. A tarde estava a ser enfadonha, quando baixei da camarata e vim à zona de convívio. Apareceram o Bernd e o Peter que há dias apareceram numa das fotos. E este foi o início de um encontro imediato de terceiro grau. Peter é para-médico no exército alemão, e esteve a aconselhar-me sobre o que fazer com o pé, sobre a medicação e afins. Entretanto comecei a falar do que me anda a deixar ansioso, o caminhar, o chegar, enfim de tudo um pouco. Enquanto falava e contava histórias da minha vida, o Bernd, o Bernardo alemão, me pergunta quando é que eu fazia anos, 28 de Setembro disse-lhe eu, foi a segunda quase coincidência, ele faz a 29. Restou-me perguntar que idade tinha, 33, o mesmo que eu. E foi-me partilhando que há medida que lhe ía falando da minha vida que ele se revia em muito da minha maneira de viver as coisas e na parecença de alguns acontecimentos. Enfim tudo ficou muito estranho, as semelhanças no nome, idade, data de nascimento, acontecimentos semelhantes a ocorrerem exactamente no mesmo período das nossas vidas. Tudo demasiado surreal. Entretanto fomos ver o jogo de Espanha a um pub Irlandês que de Irlandês pouco tinha, enquanto vinham as cervejas veio também um pires de azeitonas, o Bernd ofereceu-me mas eu não aprecio, o qual me diz que ele também não. Tudo era estranho como um irmao gémeo, uma vida paralela noutro pais. Há coisas fantásticas e estranhas. Ainda assim a vida é bela de mochila às costas.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
33º Sinal | O gostar dos outros pelo caminho entre Belorado e San Juan de Ortega
Hoje teria muito para dizer, episódios de muita emoção, simplicidade, genialidade, divindade, e outras tantas boas palavras acabadas em ade, como amizade. Ontem, enquanto jantavamos ainda que estivesse um pouco em baixo, pela segunda vez e à volta de uma mesa disse aos meus companheiros, homens e mulheres, jovens, adultos e maiores, que gostava deles como pessoas que dá gosto ter por perto. De peito aberto, disse-o. A maré sentimental típica do português tem vindo ao de cima, e assim "el portu" como me chamam aqui por vezes aproveitou a oportunidade de transmitir teorias que por vezes ponho em prática e que como todos por vezes esqueço, mas que são essência da minha forma de ver as coisas. Que é o transmitirmos aos outros o quanto gostamos deles, dizendo-o, escrevendo-o, demonstrando com acções, e a promoção do elogio como forma de destacar as coisas boas de quem abraça e envolve o nosso mundo. Depois de partilhar o que me ía na alma ainda me deu para ouvir um como me quedas bien. Hoje, pensava que ía sozinho de autocarro, mas os outros três após um quilómetro voltaram para trás e tive companhia. Viemos para San Juan de Ortega de boleia. Como choveu de manhã, os outros peregrinos chegavam de ponchos, guarda-chuvas, etc., mas chegavam felizes, como é o exemplo que se vê na foto do Michel, um peregrino francês de sessenta e qualquer coisa anos. Entre tudo o que se foi passando hoje, recordo já com alguma saudade momentos de dois tocadores de flauta diferentes mas muito bons dentro da Igreja desta aldeia que não tem muito mais que meia dúzia de casas. O silêncio e as notas a ecoarem foi uma sensação de paz total, esta sensação repetiu-se em mais dois momentos. Numa conversa com o José um dos tocadores de flauta que apresentei à dias e quando com a ajuda de uma guitarra consegui convencer uma americana a cantar o Amazing Grace, e como diz o Julian, que hay cantado como un angele. Julian é um outro peregrino espanhol que enche as medidas de qualquer ser humano com uma humanidade maior. Vou tendo de tudo um pouco filmado, acho que poderei ter muita coisa para partilhar e boa. No meio de tudo isto, tenho de falar numa parte importante da conversa com o José, o tocador de flauta. Falávamos de Deus e do que será ou poderá ser. E ouvi a definição mais pura, sentida, clara e talvez perfeita que alguma vez ouvi. Deus não será um ser maior sentado num trono no céu, não é um ser que se coloca lá em cima a julgar, mas sim um ser que existe e que é representado em cada um dos seres vivos, homens, animais e plantas, e que na sua existência então estamos todos ligados. Desta maneira quando agredimos alguém por estarmos todos ligados acabamos por nos agredir a nós mesmos ou ao contrário fazendo bem aos outros fazemos a nós mesmos. Ora para mim, tornou-se numa definição clara para crentes e não crentes. Porque uma ideologia de fazer o bem aos outros nunca fez mal a ninguém. Viva a mente dos simples, porque sempre acabam por ver mais longe. De San Juan de Ortega e aberto ao mundo, a vida é bela de mochila às costas.
32º Sinal | Welcome to the irish corner
Feito o balanço de hoje, meia etapa feita, o pé novamente inchado, com as coisas boas já habituais dos almoços bem dispostos e as conversas com gente nova. Hoje foi dia de falar com um grupo de irlandeses. Ainda que não caminhem todos juntos, uma professora de línguas, um psiquiatra e seu filho e uma dinamarquesa que se juntou à conversa passamos um bom pedaço da tarde a falar um pouco de tudo, mas sobretudo de cada um dos nossos países. Uma coisa que achei engraçado foi que os nomes dos dias da semana em inglês vem de nomes de deuses vikings. Para uns nada de novo, para mim foi. Pés de molho na água fria da piscina. E assim passou mais um dia neste caminho que todos os dias nos traz coisas novas, terras novas, e o mais importante do caminho as pessoas novas e velhas. A vida é bela de mochila às costas.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
31º Sinal | A pé novamente ou talvez não
Alvorada! Hoje acordei às quatro à conta de querer começar a andar hoje. Sai eram quase seis à conta de uns atrasos de uns companheiros de viagem. Após seis quilómetros de caminho o meu pé esquerdo continua a doer. Pondero parar na primeira povoação e não fazer mais estragos. Tenho de ser consciente que se quero ir a algum lado, tenho de estar melhor e não devo arriscar a grande exprimentações. Por isso, o meu dia termina aqui em Granon, se houver autocarro. Ok, não havia, mais três quilómetros e tal, o que dá quase meia etapa. Foi bom ter continuado, cruzei-me com o peregrino polaco que está a fazer caminho desde a Polónia, e ainda me cruzei também com um peregrino norueguês que socorri à dois dias atrás quando ele estava quase a desfalecer. É bom ver gente conhecida. Troquei palavras também com uma dinamarquesa, ela deu-me um bom conselho... Andar a um passo mais lento, mas ao passo recomendado por ela mesmo assim a coisa não marchava bem. Enfim, não consigo deixar de ficar um pouco aborrecido e farto desta situação. Ainda assim, a vida é bela.
30º Sinal | Santo Domingo à quarta-feira, a revelação musical
Até à data e no resto do caminho parece que não poderei jamais estar melhor instalado. Este albergue é quase um hotel. Sítio a ficar. Foi um dia muito low profile, marcado pela despedida do Senhor Salvador de Bilbao, o companheiro de mi alma como me chamou. Grande pessoa que ensinou detalhes culturais e me fez descontrair com bastante sentido de humor. Bem hajas Salvador. Mas o dia teve mais dois pontos altos. José, jovem agricultor de Alicante, uma máquina a andar e a simplicidade em pessoa. O Pepe revelou-se como um tocador de flauta exímio proporcionando uns bons momentos musicais. O outro e último foi o acrescentar à lista mais dois amigos de mais uma nacionalidade diferente: África do Sul. Um casal de mais de estudantes medicina que proporcionaram uma boa e longa conversa. Coisas simples, coisas boas. A vida é bela de mochila às costas, mesmo em dias em que falta o ânimo.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
29º Sinal | Como um dia de Santo Domingo da Calçada
Hoje o dia começou às seis da manhã, talvez seja o áútimo em que ando de autocarro, a ver como estou amanhã. Hoje ficaremos no albergue mais antigo do caminho. Um albergue fundado em 1044, ela Confraria do Santo. Estou na terra da galinha que está dentro da igreja.
Até ver, hoje será um dia pacato. Tenho de forçar o descanso porque nos últimos dias com tantas horas de cozinha, e animação de outros peregrinos, tradutor para hospitaleiros, não tenho dado muito descanso ao pé. Claro que o sentido de utilidade que tenho vivido compensa, mas o clube dos coxos tem vindo a diminuir e amanhã se não estiver bom serei o único. Mas é o que tiver de ser, temos mais vinte e tal dias a andar... a sensação continua a ser surreal.
A vida é bela de mochila as costas.
A vida é bela de mochila as costas.
28º Sinal | A unificação do caminho
Hoje tive oportunidade de ir dar um salto muito rápido ao blog, e é bom sentir que vou conseguindo fazer chegar de alguma forma o modo que eu vou absorvendo as coisas deste caminho. Diz o meu irmão e bem, que não é um caminho alternativo, é o meu caminho, é a minha história de vida. E caminho, cada um tem o seu. Hoje estou em Najera, é dia de S. Pedro e de festa popular impressionante. Junto a uma zona verde do rio que atravessa a povoação, crianças a idosos se juntam para fazer churrascos e beber vinho da rioja, que fresco muito fresco não é mau afinal. As crianças e jovens fazem guerras de água com pistolas e garrafas de água e vinho se for o caso, dentro e fora do rio. Em pouco tempo, infância e juventude esta toda encharcada. No vídeo apesar da má qualidade de imagem podem apreciar a alegria do povo que dança à frente e atrás de uma fanfarra. O espírito é extasiante. Deu-me vontade de vir cá para o ano. Mas a minha amiga basca Haizea contou que numa terra chamada Aro hoje logo pela manhã há uma batalha de vinho. E depois a festa segue com o ritmo daqui. Pois meus amigos temos de vir celebrar aqui. Hoje naquele que é o meu caminho mais uma vez fui o cozinheiro para nove, fiz um panelão de arroz de frango que não sobrou, do muy rico há quem já deseje que eu continue mal do pé para ser o cozinheiro de serviço à abertura do restaurante de tortilhas... Querem-me destinar à cozinha. Hoje entre conversas com o Dantas, brasileiro que nos tem acompanhado, estivemos a partilhar histórias de vida e foi estranho no bom sentido ter encontrado uma pessoa com uma história de vida em alguns campos com tantas semelhanças à minha. Foi estranho mas bom, sinais de esperança para um bom sentido de vida. Na vida, no mundo, nada é original tudo se repete apenas os intervenientes mudam, mas dai surge a unicidade da vida de cada um e dos seus. Ao fim ao cabo da falta de originalidade no sentido global, surge o especial e único do que cada um somos a vivemos.
A vida é bela de mochila às costas com paragem em lugares diferentes, com histórias diferentes para contar. Por vezes penso que poderia escrever mais sobre os locais, mas mais que os locais e as paisagens bonitas, o caminho são as pessoas que passam, partilham e cohabitam nele. Deixo os pormenores históricos para o conselheiro Acácio. Entretanto a vida segue... Amanhã sigo até Santo Domingo da Calçada.
terça-feira, 29 de junho de 2010
27º Sinal | Uns a pé, outros de cavalo, e o clube dos coxos de autocarro
Depois de uma despedida musical do albergue de Logroño proporcionada mais uma vez pelo Sérgio Godinho versão Bernardo, resultado, duas hospitaleiras de lágrimas nos olhos. E ainda deu para ouvir um elogio que ontem tinha feito a diferença pelo jantar e pela alegria proporcionada a todos. Foi bom sentir que a minha maneira de ser acaba por ser útil. À medida que o tempo vai passando os laços e os contactos vão-se estreitando, e como alguns vão partindo de regresso pelas mais diversas situações surgem as conversas que na maior parte das vezes depois não dá em nada, mas por enquanto já se fala em nos visitarmos uns aos outros em Bilbao, Madrid, Aveiro, etc. É o abrir das portas de tua casa, e o abrir das portas do mundo inteiro para ti. Hoje mais uma vez tive de dar uma mãozinha ao casal americano que nos acompanha desde ontem devido ao mau estado dos pés da senhora.
Bem, hoje sigo viagem até Najera, a ver o que este caminho diferente me traz hoje. A vida é bela de mochila às costas.
Bem, hoje sigo viagem até Najera, a ver o que este caminho diferente me traz hoje. A vida é bela de mochila às costas.
26º Sinal | A tortilha do caminho
Bem hoje o dia foi animado aqui para o menos válido, como se diz aqui por estes lados. Animado no sentido que mal parei desde o último sinal que enviei. Este albergue paroquial tem um bom princípio de tornar as tarefas comunitárias, mas a meu ver com algumas deficiências no acolhimento... Sou um incentivador da alegria, e quando limitam o bom ambiente por questões que podiam ser toleradas facilmente sem ondas mas vá não interessa. Juntamente com o Salvador, um senhor excelente deste pais vizinho, fizemos as deliciosas tortilhas para os mais de trinta peregrinos e hospitaleiros do albergue, claro que tivemos ajuda a descascar os ingredientes, dez quilos de batatas, não sei quantas cebolas e pimentos. O resultado final foi uma excelente refeição elogiada pela hospitaleira, mas o mérito é do Salvador o especialista das tortilhas. Deu para eu colocar toda a gente animada antes do jantar com uma guitarrada. Pelo final da noite, eu mais meia dúzia de amigos fomos para a rua com a guitarra, onde pude tocar música portuguesa dos Deolinda, e na despedida de uma família de peregrinas de Valência, esteve presente o Sérgio Godinho, com o "parto sem dor". Começam a ficar interessados pela língua portuguesa os companheiros de caminho castelhanos. No meio disto tudo tenho desenvolvido uma relação com uma avó que arranjei por afinidade, uma senhora de setenta anos, galega emigrada na Dinamarca, que me tem tratado com um carinho especial desde o primeiro dia. Assim foi mais um dia da vida é bela com ou sem mochila às costas.
25º Sinal | O sentido alternativo do caminho em Logroño
Depois de guia e animador turístico do clube dos coxos nesta bela cidade de Logroño, entre idas à farmácia e albergue viemos almoçar à Praça do Mercado e provar o vinho da Rioja, que não é nada de extraordinário... Bebe-se bem com gasosa La Casera. É uma cidade com um centro histórico bonito... Nota-se muita presenca muçulmana na rua, tem vida própria. Até agora há um apontamento sobre todas as cidades e vilas pelas quais passámos... Tem sempre alguma coisa do centro histórico em obras. Ainda assim vale a pena para um momento de convívio numa esplanada a beber um copo de vinho. Isto também faz parte da vivência peregrina... A descoberta dos outros e das outras culturas. Mas no fundo é a descoberta de ti mesmo quando te integras com os outros e sozinho. A vida é bela de mochila às costas. Ps: parece que vou fazer o jantar para trinta pessoas.
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